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A graça de Deus é melhor do que a vida

Texto: Lucas: 16:14-31

As religiões, de modo geral, podem ser mal compreendidas pelas pessoas que as professam. Especialmente quando elas passam por um processo de perda do sentido proveitoso que poderiam gerar para si mesmas e para os outros, e dessa forma é muito provável que, na perda dessa razão de ser do espírito religioso que gera fruto pacífico, elas incorram na tentação de transformar aquilo que deveria ser algo proveitoso em uma mera religião de performance.

O sentido, neste caso é substituído pela auto promoção e, consequentemente, a produzir a impressão nos outros de que eles são os melhores, os corretos e que somente eles possuem a chave da ortodoxia, da santidade, da salvação. Daí vem sempre “aquele jeitinho” de querer usar o divino a seu favor, para defender as próprias faltas e forçar a Lei para alcançar os interesses egoístas. É o sujeito que condena os outros por algo que, no final das contas, ele mesmo é culpado do mesmo pecado. Ou aquele camarada que gosta de passar uma imagem de perfeito e modelo de conduta criando uma série de restrições e normas em nome de Deus ou da própria religião que, afinal não tem nada a ver com Deus, pelo contrário. Essas pessoas acabam criando suas próprias regras. É por pura auto justificação, na verdade, lá no íntimo há um vazio obscuro.

Esse tipo de religião é opressora, alienante, cria um verdadeiro abismo entre os que a praticam e aqueles que não seguem as mesmas regras e ascetismos, as quais não possuem valor algum diante de Deus e do próximo.

Na contra-mão, é interessante ver no Evangelho que Jesus não trouxe mais um pacote religioso. Não trouxe mais um peso. Nem uma lista de proibições e deveres para se seguir com a finalidade de que o indivíduo possa receber algo de Deus como merecimento ou permuta. Algo muito mais precioso está sendo trazido na Sua pessoa. Jesus veio aliviar o jugo dos cansados e oprimidos. A boa-nova trazida por Ele é que os homens não possuem nada para oferecer a Deus, mas o contrário sim. Deus enviou Seu Filho para oferecer a graça. Jesus veio para dar vida, dar a própria vida, ensinar a viver e gerar vidas para Deus por meio do Evangelho do Reino.

No entanto, todo reino tem seus princípios e valores que devem ser guardados, porém não na cara para que todos vejam e aplaudam, mas no peito para que os homens percebam e glorifiquem a Deus (Mateus 5:16; ler também Romanos 15). E seja isto em benefício do semelhante.

Os fariseus desprezavam os outros, pois se achavam mais justos do que todos. Eles eram religiosamente bem-sucedidos aos próprios olhos, e rigorosos para com os outros. Impunham aos homens o que eles mesmos não o faziam. Buscavam se justificar diante destes impondo fardos pesados que eles mesmos não o carregavam, sempre estavam achando um meio de se eximirem de o fazer, e conquanto assim procediam desprezavam a Lei de Deus. Eles ousavam colocar-se acima da Lei. Jesus age no sentido de convencê-los que estão em grande erro e para isso ele profere várias parábolas e também algumas palavras de censura direta contra a hipocrisia e loucura deles.

A parábola de Lázaro e o rico situa-se no contexto dos ensinos de Jesus e dos constantes conflitos que os fariseus geravam por causa deles, o que podemos observar desde o início do ministério do Senhor. No capítulo 11 vem uma dura censura proferida sobre os fariseus e os intérpretes da Lei intensificando assim a intenção deles em procurar matar a Jesus. No 12, ele reprova a avareza e no 13 fala sobre a enganosa atitude dos homens da religião judaica de considerar os outros mais pecadores do que a si mesmos por causa daquilo que aqueles padecem; Jesus profere uma parábola sobre a necessidade de produzir frutos de arrependimento sob a ameaça do iminente juízo de Deus contra todos os que permanecem impenitentes. Mais adiante, no capítulo 14, quando Jesus havia entrado na casa de um dos principais fariseus para uma refeição, ele passa a confrontá-los com as questões da Lei que mais os faziam rilhar os dentes contra o Mestre.

O ensino de Jesus sobre os valores do Reino de Deus deixavam os escribas e fariseus enfurecidos, pois muitas vezes eles eram ilustrados como os malfeitores, ou aqueles que ficavam de fora da ceia, das bodas, etc; enquanto os que eram desprezados e tidos como pecadores ou imundos eram recebidos com alegria, grande regozijo. Acrescente a isso que, geralmente nas parábolas, Jesus quebrava alguns paradigmas subvertendo o conceito que as pessoas erroneamente tinham acerca de Deus e da salvação. Por exemplo, um pai que corre ao encontro do filho rebelde que volta pra casa, não era o comportamento esperado de um senhor na comunidade judaica daqueles dias, era desonroso (Lucas 15:11-32).

Na sequência, no início do capítulo 16 ele dá um sermão sobre economia e finanças para seus ouvintes, e entre eles se acham os fariseus. Nestes ensinos o Senhor fala sobre usar as riquezas de modo leal para fazer amigos e se tornarem fiéis na aplicação das coisas que pertencem a outros, para que não sejam tidos como indignos até mesmo do que é seu (11-12); Jesus ensina sobre o devido uso dos recursos deste mundo para o qual eles são destinados.

Os fariseus ridicularizaram o Senhor por ele ter feito a evidente distinção entre o que serve a Deus e o que serve às riquezas, por serem eles avarentos. Não há no texto o motivo ou a evidência quanto ao modo que os fariseus ridiculizaram a Jesus. Porém, podemos olhar para o ensino do Senhor sobre finanças e para sua pessoa, daí pode-se ter uma melhor noção do que eles tinham em vista. Jesus era conhecido como o Nazareno, cidade que por si só já era desprezada, ainda estava localizada na Galileia; filho de carpinteiro; conhecido como aquele que não tinha onde reclinar a cabeça; era sustentado por mulheres; e seus discípulos eram pescadores galileus. Todavia, justamente por isso mesmo Jesus era habilitado para falar sobre dinheiro, pois nele não havia cobiça. Enquanto eles zombavam, o Mestre então diz que eles são os que justificam a si mesmos diante dos homens, expondo assim a motivação errada de seus corações, que é conhecida por Deus. Eles tinham a aprovação humana como padrão para aprovação diante de Deus. Jesus, porém, diz que exatamente “aquilo que é elevado diante dos homens é abominação diante de Deus”. Jesus já havia censurado a hipocrisia deles por sempre escolherem os primeiros lugares, as longas orações nos cantos das praças, jejuns com cabelo desgrenhado, dízimo até das menores hortaliças, eles haviam caiado o sepulcro dos profetas, não se misturavam com os pecadores, alongavam seus filactérios, se gloriavam de guardar minuciosamente a Lei e sustentavam todo tipo de pompa que atraísse a atenção dos homens e o elogio deles. O Senhor então diz-lhes: “A Lei e os Profetas vigoraram até João; desde esse tempo, vem sendo anunciado o evangelho do reino de Deus, e todo homem se esforça por entrar nele. E é mais fácil passar o céu e a terra do que cair um til sequer da Lei” (v.16-17).

– Em miúdos o que ele está dizendo é que a aprovação dos homens não constitui o padrão da aprovação de Deus. Seu padrão continua sendo aquilo que a Lei e os Profetas testificaram. Na verdade, aquele que busca a aprovação dos homens acaba recebendo a condenação de Deus. Pelo fato de que Deus não tem compromisso com aquilo que os homens têm em estima, mas com Sua própria Palavra. Jesus declara-lhes que é mais fácil sucumbir o céu e a terra do que um único til da Lei vier a falhar.  Reafirma assim a Lei, que não será de forma alguma abolida; aqueles que se julgam os guardadores da Lei são os corruptores dela. A mera conformidade externa com a Lei não produz justiça, mas a motivação sincera segundo a vontade de Deus. Trata-se de uma questão do coração, o qual é patente ao Senhor. Os fariseus e muitos outros doutores buscavam “brechas” na Lei para justificar o repúdio a mulher; para isso eles defendiam motivos tolos, os mais execráveis e fúteis. Jesus diz que eles estão transgredindo a Lei ao expandir aquilo que foi concedido “por causa da dureza do vosso coração” ao lavrar carta de divórcio a sua mulher por qualquer motivo que eles acham justo, quando a única concessão é para “relações sexuais ilícitas”. E isso e muitas outras coisas eles o fazem com as motivações erradas do coração, mas procuravam escondê-las através de uma aparência que impressionava os homens.

Tentar impressionar a Deus com legalismo já é por si só uma loucura, mas impressionar os homens e achar que isso é aprovado por Deus, deixando de lado Sua Lei, é certamente encontrar o caminho para a condenação. Eles na realidade negavam os preceitos mais importantes da Lei. No entanto, Jesus expõe que eles na verdade fazem todas estas coisas não por causa somente do apreço que recebiam dos homens. Há algo que pulsa mais forte no orgulhoso coração humano atraído pela glória deste mundo. Jesus revela isto e, para tal, ele passa a ilustrar com a parábola do rico e Lázaro.

A parábola mostra a vida regalada que os fariseus levavam, uma vida que, naquele contexto histórico, os ricos eram invejados. Eles eram aqueles que os pobres e pecadores queriam ser. De boa aparência, status, estimado por todos, e “abençoados”, pois os que eram ricos, assim eram considerados. Todavia, o nome do “certo homem rico”, nem ao menos é citado. Quanto a Lázaro (a quem Deus ajuda), sobrevive ao portão daquele desejando ao menos as migalhas de sua mesa. Lázaro era desprezado e tido como pecador amaldiçoado pelos seus pecados naquela geração, por causa da condição em que se encontrava. Havia um abismo que aquela geração considerava intransponível e que era mantida por aqueles que se julgavam mais justos aos seus próprios olhos, como os fariseus. Este era o pensamento daqueles que achavam serem salvos; estes eram os sinais da aprovação de Deus: uma vida de luxo e riquezas. Jesus quebrou esses paradigmas religiosos insensatos com a inauguração do Reino. Ele disse que a vida de um homem não consiste na abundância de bens que o tal possui (Lucas 12:15). Mas, especificamente aqui, Jesus revela que, ao morrer o mendigo Lázaro, foi levado pelos anjos para o seio de Abraão, enquanto o rico foi sepultado e lançado no inferno.

Isto nos leva a uma mudança de mente com relação a quem ou aquilo em que depositamos nossa confiança: de uma aparência saudável apenas exteriormente, e gratificante no plano terreno, para uma motivação interna que busca confiar única e exclusivamente em Deus e não nas riquezas e nos atalhos da religião humanizada; a não termos como padrão a prosperidade dos ímpios. Além do mais, uma atitude de aplicar os bens naquilo para que sirvam, conferindo as coisas deste mundo com as deste mundo, e as coisas do Reino com as coisas espirituais que estão sob o domínio excepcional de Deus.

Em seguida o rico, diante de sua condição, implora a Abraão que mande a Lázaro para refrescá-lo com uma gota de água, pois está atormentado na chama do inferno. Abraão responde negativamente, pois aquele homem já havia recebido toda glória que buscava quando estava sobre a terra e foi recompensado, enquanto Lázaro que buscava consolo, mas só alcançou humilhação e desprezo sobre a terra, recebeu a sua recompensa após a morte. O Senhor nos mostra que agora havia um abismo intransponível no plano post-mortem que separava o rico de Lázaro de maneira muito radical, mas agora de um modo dimensional e existencial inverso como o era debaixo do sol. As recompensas foram convencionadas de modo legítimo, legal e justo.

Devemos ponderar sobre o que fez com que a condição de ambos se invertesse tão profundamente que, ao mesmo tempo em que Lázaro que era mendigo e considerado como um maldito pecador diante dos homens, porém morreu e foi levado para o “seio de Abraão”, ao passo que o rico, o qual era tido como o salvo, foi condenado ao fogo eterno. Devemos observar que os fariseus eram os que se vangloriavam por ser descendência de Abraão e que um homem como Lázaro fosse por ele recebido era algo inconcebível. Há, todavia, um princípio que estabeleceu esta distinção que Jesus nos mostra através da parábola. O rico, que após receber uma resposta negativa para alívio de seus tormentos, implora que Abraão mande agora que Lázaro ressuscite e vá até aos seus parentes para adverti-los do juízo que os espera. Para isso ele recebe também uma resposta negativa ao ouvir: “Eles têm Moisés e os Profetas, ouçam-nos”. Então o rico replica e diz “não, pai Abraão”. Por conseguinte ele sugere que se alguém ressuscitar dentre os mortos e for exortá-los haverão de se arrepender. Então novamente Abraão responde que “se eles não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão persuadir ainda que alguém ressurja dentre os mortos”.

Creio que o princípio explicitado por Jesus recai novamente sobre a Lei pelo fato de que os fariseus que se gloriavam da Lei e do louvor que procede dos homens. Amavam mais a glória dos homens do que a glória de Deus. Buscavam satisfação nos prazeres terrenos e não em Deus. Eles confiavam nas riquezas e desprezavam aqueles que não dispunham das mesmas por um motivo que Jesus buscou revelar quando os confrontava com parábolas e ensinos que eram inversos ao que se esperava naquela época. Ao passo que Davi que compôs o salmo 63 declara que a graça de Deus é melhor do que a vida (v.3), o Mestre demonstrou que mais do que rejeitar a Lei de Deus, aqueles homens odiavam a graça de Deus. Eles abominavam a graça da salvação aos humildes e desprezados, mas que eram mais aptos a depender de Deus por sua miséria. A avareza que brota do coração humano e a constante volição de substituir os valores de Deus pelos valores humanos é consequência do pecado de querer ser independente de Deus, de rejeitar Sua graça e impor suas próprias indulgências acima da Palavra de Deus. É um princípio mortal e miserável que aos olhos humanos parece belo e justo por aparência, mas na realidade é catastrófico e suas consequências podem ser estendidas para a eternidade. Aqueles que rejeitam a graça de Deus neste mundo, inexoravelmente jamais a receberiam no mundo por vir e ainda que desejassem uma gota que fosse, isto lhes estaria negado por causa da justiça divina que testifica em Sua Palavra os termos e as condições de se tomar tal atitude, pois para os tais já não resta mais nada a ser feito, porquanto a salvação vem pela graça de Deus.

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