Mensagens

Deus e as tragédias (Lucas 13:1-5)

Entendemos a tragédia como aquele fato extremamente chocante, o qual tantas vezes parece mudar a trajetória da humanidade, ou pelo menos a vida das pessoas de uma forma tremendamente marcante, cujas consequências se materializam das mais diversas formas na mente, no comportamento e em algum sentido, da direção humana durante sua curta existência. Como também mexe com o profundo do ser dos de perto e dos de longe. Abala todo pensamento de segurança neste plano instável da existência. A Bíblia desde o início traz essa memória de que as tragédias simples e inesperadamente acontecem, não nos avisam, se instalam, ferem, trazem um pesar amargoso, desastroso – de certa forma irremediáveis – pois quase sempre está ligada a fatos que extirpam vidas ou deixam sequelas que está além da capacidade humana administrar ou reverter.

Em toda a trajetória da raça humana sobre a terra, desde que o pecado se instalou no coração do homem e corrompeu todas as estruturas da vida em sociedade – que penetrou até mesmo as dimensões da natureza – passou a existir aquilo que chamamos de tragédia. Seja nos aspectos de relacionamentos mais simples como a família, seja nos relacionamentos entre vizinhos e desconhecidos, desde o princípio a tragédia esteve presente no cotidiano do homem, da família e do mundo. A Bíblia fala de uma tragédia familiar que tomou contornos abomináveis na vida de Adão, Eva, Caim e Abel, onde o filho mais velho, Caim, matou seu irmão por um sentimento latente de inveja e ódio profundo, de tal modo que não somente o levou ao impulso de cometer um assassinato, mas de se rebelar contra Deus (Gn. 4:1-16).

CTRL ZEssas tragédias também geralmente se manifestam através de fenômenos da natureza como tufões, terremotos, pestes avassaladoras, tempestades, maremotos, dentre outros; mas também vem em forma de chacinas, desabamentos de prédios, casas, barrancos, terrorismo, genocídios, ou fatalmente de acidentes que nos escapam totalmente de qualquer tentativa de controle sobre as circunstâncias. A verdade é que nenhum de nós está imune a quaisquer tipos de tragédias. E em certo sentido, todos vivem pela fé de que amanhã sempre vai chegar. Vivemos sempre programando as nossas vidas e ajustando os nossos relógios para o futuro; nossa agenda está além daquilo que podemos contemplar. Nós estamos sempre aquém do próximo segundo de nossa existência, nossa integridade física, nossa saúde e não há absolutamente nada que possamos fazer quanto a isso. Alguns podem argumentar dizendo que muitos desastres poderiam ter sido evitados se tivéssemos tomado as devidas precauções para que não fôssemos expostos a riscos e tragédias desnecessárias. No entanto, o fato é que nunca estamos preparados o suficiente para isso.

Ceticismo, desespero ou confiança

É, todavia, de modo geral, nos momentos de catástrofes e tragédias que as pessoas se tornam sensibilizadas, fragilizadas diante das mais adversas situações que nos envolvem arrasadoramente e vez ou outra surge aquela questão filosófica tão antiga quanto o homem: E Deus, onde está? Enquanto algumas pessoas alimentam aquele pensamento e sentimento revoltosamente cético em relação a Deus e ignoram totalmente a ideia de que existe um Deus – e, para elas, se existe Ele não está se importando com o que acontece aqui na terra – outras, pelo seu apego a religião, creem que Deus existe e a única coisa que lhes está proposta fazer diante da incompreensão dos fatos é buscar algum consolo, um conforto para a alma.

Existe também aquele tipo de gente que não precisa procurar evidências da existência de Deus, mas creem de fato e de verdade e a pesar disso acham que as tragédias não têm absolutamente nada a ver com Deus. Para essas pessoas Deus é amor e está isento de toda responsabilidade pelas desgraças ocorridas que trazem o mal sobre os homens. É como se elas fizessem Deus a sua própria imagem, dentro dos seus conceitos de bondade, incapaz de trazer o mal sobre as pessoas com um apelo razoável e justo para Ele mesmo. Por mais duro que nos pareça, a Bíblia mostra que muitas vezes Deus está na administração das tragédias, mas o que realmente não compreendemos é o porquê disso e que Deus não tem prazer na morte das pessoas, mas na verdade busca meios para que vivam. É o que está escrito com relação, por exemplo, ao ímpio em Ezequiel 18:23: “Tenho eu algum prazer na morte do ímpio? diz o Senhor Deus. Não desejo antes que se converta dos seus caminhos, e viva?” (ver também Ez. 33:11). A Bíblia também diz que todo espírito pertence a Deus, e morrendo o homem ou a mulher, tornam para Deus que lhe deu a vida. No antigo Israel, a Lei providenciava um refúgio para aquele que cometesse um crime por acidente e para que o tal não se tornasse vítima do parente vingador, foram designadas cidades para refúgio do culpado, evitando desse modo que viesse sangue sobre sangue sobre a terra.

A Bíblia também fala da fatal e inevitável condição a que todo homem está sujeito por causa da presença do pecado que torna a vida perecível: “Porque certamente morreremos, e seremos como águas derramadas na terra, que não se podem ajuntar mais; Deus, todavia, não tira a vida, mas cogita meios para que não fique banido dele o seu desterrado” (2 Samuel 14:14). O contexto dessa passagem é a fuga de Absalão que estava sendo perseguido pelo rei Davi, seu pai, por ter ele matado seu irmão, Amom, o qual cometera incesto com Tamar. Ela destaca o princípio de que para Deus, a vida é mais importante do que completar o círculo de uma tragédia através da vingança, ainda que seja justa. A misericórdia triunfa sobre a justiça e o amor redime uma grande quantidade de pecados (Tiago 5:20).

Jesus fala de uma chacina e uma tragédia ocorridas em Israel que, em certo sentido, nos remete a pensar, não na condição dos mortos, mas dos vivos, os quais deviam estar atentos para que o mesmo não lhes sucedesse.

A Tragédia dos galileus e da Torre de Siloé

Ora, naquele mesmo tempo estavam presentes alguns que lhe falavam dos galileus cujo sangue Pilatos misturara com os sacrifícios deles. Respondeu-lhes Jesus: Pensais vós que esses foram maiores pecadores do que todos os galileus, por terem padecido tais coisas? Não, eu vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis. Ou pensais que aqueles dezoito, sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, foram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? Não, eu vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis (Lucas 13:1-5).

O princípio básico aqui é não tentar inquirir a Deus e seus desígnios quanto aos que morrem em tragédias ou em outros tipos de morte, isto poderia nos levar a loucura. Mas quando questionamos a nosso próprio respeito, temos grandes possibilidades de nos tornar mais sensatos e sãos no nosso viver. Será que teríamos morrido do mesmo modo?

Às vezes nos perguntamos a razão pela qual Deus age de tal modo ou permite que tragédias como essas aconteçam. De certa forma, a grande questão em nossa mente abalada não é julgar a soberania de Deus sobre as questões que fogem completamente de nosso intelecto, mas temos tamanha dificuldade em aceitar, justamente por não compreendermos, o que Ele pretende com isso e surge aquela pergunta última: Por que?.

Na passagem de Lucas 13, acima, Jesus subverte o pensamento da época que considerava os mortos em tragédias culpados de algum pecado grave. Ele diz que, absolutamente, não é assim, porém devemos cuidar para que nós não venhamos a perecer de forma súbita, inesperada, trágica. Ele diz que devemos nos arrepender, pois todos estamos debaixo da mesma condição, sujeitos as mesmas consequências, passíveis de a qualquer instante ser envolvidos em uma situação trágica sem que venhamos a tomar consciência de nossa fragilidade.  Ele nos ensina que as tragédias sobre aqueles que se foram não nos compete julgar quanto a sua condição quando estavam em vida, mas ele usa isso para falar aos vivos. É um convite a viver debaixo da graça de Deus, sob seus cuidados, dependente daquele que é o Autor da vida e que deu a própria vida para que pudéssemos viver.

Da morte para a vida: Esperança.

Não é surpreendente que assim como Deus dá a vida ele a tira, e assim como ele faz descer à sepultura, ele também faz subir dela. Mas o seu desígnio final é que todos vivam. E Jesus confrontou a teologia dos saduceus que não acreditavam na ressurreição, afirmando que o Antigo Testamento explicitamente diz que Deus é Deus de vivos. Ele disse quanto aos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó, que viveram séculos antes: “Ora, ele não é Deus de mortos, mas de vivos; porque para ele todos vivem” (Lucas 20.38).

Entretanto, quando Deus se fez homem como nós em Jesus – de carne, ossos, pele, pelos, unhas, vísceras e tudo quanto diz respeito ao nosso corpo natural – ele experimentou a vida como nós experimentamos com todas as suas implicações, porém não somente de vida, senão também de morte, mas sem pecado (Hebreus 4:15). Ele sentiu dor, fome, sede, tristeza e provou a morte também.

Portanto, no que se refere a vida, Jesus é a referência única para nós; quanto a morte, Jesus também é nossa única referência, pois sendo justo e inculpável, ele escolheu morrer em nosso lugar para que não viéssemos a perecer. É esse convite a graça que nos impele a reconhecer que Deus é doador da vida, e não somente neste aspecto físico e existencial, mas no sentido mais profundo que ela pode tomar, que é a vida eterna.

Deus é Deus de vivos, para ele todos vivem. Quer bons, quer maus; quer salvos, quer condenados. Ele é aquele que vestiu-se no corpo humano e provou a dor da morte humana de um ente querido, seu amigo Lázaro, registrado em João 11 (v.35), como sua própria morte agonizante na cruz (Lucas 23:46). Jesus disse com relação a sua própria morte e ressurreição: “Ainda um pouco, e o mundo não me verá mais; mas vós me vereis, porque eu vivo, e vós vivereis” (João 14.19). Nossa esperança e vida devem estar postas em Deus que nos faz filhos da ressurreição. Ele nos convida a abraçarmos a vida que está nele para que não sejamos levados pela morte, um inimigo que ele já derrotou na cruz. Assim como Jesus ressuscitou, também com ele haveremos de ressurgir, pois ele é poderoso para isso. A transcendência da Palavra e do poder de Deus faz com que tenhamos, para além de todas as tragédias, a confiança de que há um Deus vivo que se importa conosco e nos chama a viver com ele sem temer as implicações de uma vida exposta às insurgências catastróficas em nossas vidas. Mas nos impele a agarramos firmes a promessa do Deus vivo que não pode mentir jamais.

Deus abençoe você.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s