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Desceu Cristo ao Hades?

Este trabalho tem por objetivo, de forma sintética a) Conceituar o significado do Hades pagão-grego; b) analisar o Credo Apostólico na cláusula descendit ad inferna, originalmente ausente nos primeiros escritos do Credo Cristão, bem como expor a origem da interpretação equivocada da descida de Cristo ao mundo dos mortos; c) interpretar e confrontar com essa ideia a passagem de 1Pedro 3:18-20, principal texto base para defender a ida missionária de Jesus ao inferno. Para isso, a teologia reformada será o ponto base para a interpretação desta cláusula, e, certamente, as Escrituras Sagradas como coluna neste último objetivo; e d) destacar resumidamente as tradicionais  interpretações das demais correntes teológicas: Católica, Anglicana, Luterana e Arminiana

Segundo o pensamento grego, o Hades era o lugar dos mortos. Esse pensamento argumentava que no mundo dos mortos, a sepultura, havia o lugar de tortura e sofrimento chamado Tártaro. Este era o lugar onde os perversos eram deixados. Havia também o lugar de gozo, paraíso, o Elísio, onde os piedosos entravam para sua recompensa. Esta era a concepção grega-pagã a respeito do destino daqueles que passavam pela morte.

A expressão desceu ao Hades não era encontrada nas primeiras transcrições do credo, tanto na Igreja Ocidental quanto na Oriental. Todavia, ela apareceu neste Credo e no Credo de Atanásio. Ela foi inserida como uma forma de substituir a expressão “crucificado, morto e sepultado” presente no Credo Apostólico. Quando da expressão “sepultado” do Credo de Aquileia, a expressão “desceu ao Hades” foi posta no lugar. Portanto, durante certo período de tempo, enquanto se omitia uma expressão apresentava-se a outra, e vice-versa. Porém, a querela teológica veio a surgir quando ambas apareceram escritas sequencialmente. Então, se passou a explicar a partir disto, que Cristo havia ido ao inferno.

O texto abaixo e sua tradução pertencem ao Credo Apostólico elaborado, não como se pensa, pelos Apóstolos do Senhor, mas pela Igreja Cristã. Não se sabe precisamente, porém, quem e quando o definiu, também não há registros da origem da inserção da cláusula que se encontra, acima, na linha de número nove.

Symbolum Apostolicum1Credo in Deum Patrem omnipotentem,
Creatorem caeli et terrae.et in Iesum Christum, Filium Eius
unicum, Dominum nostrum,5qui conceptus est de Spiritu Sancto,
natus ex Maria virgine,

passus sub Pontio Pilato,

crucifixus, mortuus, et sepultus.
Descendit ad inferna

10tertia die resurrexit a mortuis.

ascendit ad Caelos,
sedet ad dexteram Patris
omnipotentis,

inde venturus est iudicare vivos et mortuos.

15Credo in Spiritum Sanctum

sanctam Ecclesiam catholicam,

sanctorum communionem,
remissionem peccatorum,

carnis resurrectionem,

20vitam aeternam.

Símbolo Apostólico1Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso,
Criador do céu e da terra.E em Jesus Cristo, seu único Filho,nosso Senhor,

5Que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da virgem Maria

Padeceu sob Pôncio Pilatos,

foi crucificado, morto e sepultado.

Desceu ao hades,

10ao terceiro dia ressuscitou dentre os mortos.

Subiu aos Céus

está sentado à direita de Deus

Pai todo-poderoso,

donde há de vir para julgar os vivos e os mortos

15Creio no Espírito Santo

Na santa Igreja católica

na comunhão dos santos,

na remissão dos pecados,

na ressurreição da carne,

20na vida eterna.

Amém.

Mas o que Cristo foi fazer no inferno após ser sepultado? Segundo a tradição ensinada naquele tempo (por volta de 359 d.C.), Cristo teria ido pregar aos espíritos em prisão, conforme a interpretação atribuída ao longo dos séculos à passagem de 1 Pedro 3:18-20:

Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito; no qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão; os quais noutro tempo foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca; na qual poucas (isto é, oito) almas se salvaram pela água; (BÍBLIAONLINE).

Durante o tempo de Agostinho houve a interpretação dessa passagem conforme o que o texto explicita, com relação à atividade de Cristo nos tempos de Noé, ao pregar aos ímpios daquela geração através deste. Em seu estado pré-encarnado Cristo teria exercido esta atividade. João Calvino vai postular nas Institutas que

[…] os fiéis que morreram antes desse tempo foram co-participantes conosco da mesma graça, pois que Pedro daí amplia o poder da morte de Cristo, que tenha ela penetrado até os mortos, enquanto as almas piedosas têm desfrutado da visão atual dessa visitação, que haviam ansiosamente esperado. Por outro lado, fez-se mais patente aos réprobos que eles estão excluídos de toda salvação (Volume II, cap.XVI, sec. IX).

            Dessa forma, a interpretação reformada da passagem de 1 Pedro 3:18-20 é quanto a comunicação da morte de Cristo desde os tempos de Noé, tanto para justos quanto para injustos.

            De outra feita, podemos averiguar que sintaticamente “no qual” se refere ao Espírito, e “os quais” quando se refere a “espíritos em prisão”, também vem acompanhado de uma cláusula de tempo “noutro tempo, um tempo remoto no passado, e em seguida o autor explica que tempo foi este em que Cristo pregou pelo Espírito aos que estavam em prisão; a saber os espíritos no tempo de Noé, não no Hades, entre a morte e a ressurreição do Senhor. Portanto, a passagem se refere a atividade de Cristo pelo Espírito nos tempos do patriarca Noé, e é isso que se pode observar no contexto em que estes versos estão incluídos.

No entanto, a visão tradicionalista do Catolicismo Romano assevera que Cristo foi a um lugar, que foi denominado de limbo, lugar este que guarda os mortos que não receberam a graça para a salvação, desde o tempo da Antiga Aliança. Segundo esta corrente, este lugar não é confundido com o purgatório nem com o inferno, mas com o “seio de Abraão” relatado em Lucas 16. Dessa forma, Cristo teria ido comunicar a salvação àqueles que o aguardavam.

Porém, a passagem de 1 Pedro 3:18-20 não deixa margem alguma de uma possível comunicação aos justos que haviam morrido no Antigo Testamento e esperavam Cristo, mas sim que ele pregou por meio do Espírito Santo aos rebeldes contemporâneos de Noé. E que esta obra foi realizada enquanto a arca estava sendo preparada: “os quais noutro tempo foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca;”

Já os Luteranos creem que a exaltação de Cristo se inicia com sua descida ao Hades para proclamar a Satanás que por sua morte ele “levou cativo o cativeiro” e, portanto é uma atividade que aconteceu não na cruz, mas em um momento posterior, antes da ressurreição. Há porém, certo equilíbrio quanto a este pensamento entre uma interpretação ora literal ora metafórica.

A tradição Anglicana acredita na descida da alma de Cristo ao inferno para libertar os justo cativos desde o tempo de Adão que o aguardavam, para derrotar o diabo e a morte. Em suma, o pensamento anglicano possui similaridades com a interpretação católica romana da “descida ao Hades”. Houve, porém, algumas aparentes  divergências nessa visão, pois segundo Thomas Becon, Cristo sofreu as angústias do inferno pelos nossos delitos e pecados ao ter seu corpo pendurado na cruz.

E por último, a visão Arminiana crê que Cristo desceu sim ao inferno e pregou o Evangelho para todos os mortos, tanto maus quanto bons e até mesmo para os que nunca ouviram esse Evangelho da salvação. Portanto, todos, indistintamente têm, segundo a tradição Arminiana, uma segunda chance ainda que esteja no inferno.

No entanto, quando averiguamos as Escrituras, este ponto de vista se torna insustentável. Vejamos por exemplo Gálatas 3:6-9 onde Paulo afirma que Abraão creu em Deus e esta fé lhe foi “imputada para justiça”, não somente a ele, mas a “todos os povos” que viessem a crer. Logo, Abraão e todos os que creram no Antigo Testamento foram justificados pela fé em Deus e não havia mais necessidade de que Cristo fosse até eles e pregasse o Evangelho, pois a Escritura mesmo diz que o Evangelho já lhe havia sido preanunciado (v.8).

Quanto aos “espíritos em prisão” afirmado por Pedro, temos uma visão semelhante no Evangelho de João (8:36) quando os judeus discutiam com Jesus, e este disse-lhes: “Se pois o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.” O contexto da passagem indica que estes judeus são os ímpios de seu próprio tempo que estão escravizados pelo pecado e somente o Filho pode libertá-los dessa prisão. E mais adiante Jesus revela que, não obstante Abraão ter vivido muitos séculos antes, ele “viu” o dia de Cristo e se alegrou (v.56). Aquilo que se pode encontrar em Romanos 4:3 a respeito dessa fé de Abraão, o que, afinal, exclui a possibilidade de que o patriarca, bem como os demais crentes do Antigo Testamento estavam aguardando no Hades a pregação de Cristo após sua morte.

Da mesma forma, não há margem para a interpretação de que Satanás possuia as chaves da morte e do inferno e que Cristo desceu até lá para tomar das suas mãos estas chaves. As Escrituras ensinam que o diabo possuia o poder da morte sobre os pecadores, a saber, o pecado. Cristo não somente trouxe no seu sangue a expiação pelos pecados dos eleitos, mas trouxe perdão, eterna redenção e vida eterna. As suposições de que há uma espécie de serviço satânico no inferno também é contrário às Sagradas Escrituras e por si só é insustentável, visto que outorga a Satanás uma espécie de domínio no mundo dos mortos sobre os que para lá vão, como sendo ele o senhor do inferno. A Bíblia retrata que o inferno é um lugar de tormento e onde não há descanso.

Se ele [Jesus] veio destruir as obras do diabo, então é necessário admitir que ele esteve no inferno para aniquilar as obras do diabo naquele lugar. Essa é uma espécie de universalismo disfarçado de amor pelas almas perdidas, com o grave erro de se crer que o inferno é uma criação do diabo e um lugar das atividades atormentadoras do mesmo (CAMPOS, Heber.1999, p.9).

Supor que Cristo teria ido ao Hades para embargar as obras do inimigo, que inflingia dor e sofrimento sobre os homens mortos, é desconsiderar o ensino bíblico do domínio supremo de Deus e de que o próprio inferno é o lugar da sua ira e não do diabo.

Essa interpretação da descida ao Hades, é portanto, não-literal, como tendo Cristo proclamado aos mortos em um tempo e um espaço após a morte, mas sim em que ele recebeu todos os terrores e tormentos da condenação dos ímpios no seu corpo e sua alma foi afligida, sendo também sepultado.

Muito interessante também quando lemos no livro dos Salmos o sofrimento relatado pelo salmista e do ensino que nele está contido, vale a pena conferir alguns versos:

A minha alma está farta de males, e a minha vida já se abeira da morte. Sou contado com os que baixam à cova; […]atirado entre os mortos; puseste-me na mais profunda cova, nos lugares tenebrosos, nos abismos. Sobre mim pesa a tua ira; […]Será referida a tua bondade na sepultura? A tua fidelidade nos abismos? Acaso, nas trevas se manifestam as tuas maravilhas? E a tua justiça, na terra do esquecimento? (88:3-12, R.A.).

O salmista salienta a angústia que sofria e que o levava para o leito de morte. Por isso ele pleiteava diante de Deus a sua vida. Ele mesmo apelou para que não fosse lançado na morte, pois do contrário, como ele poderia dar testemunho da bondade de Deus sobre a terra? Porque a morte é lugar de esquecimento, porém Atos 2:24 afirma que nem mesmo à morte foi possível reter a Cristo.Quanto a manifestação dos demônios e dos tormentos que eles sofrem no inferno impostos pelo próprio Deus, em Mateus 8:29 lemos: “E eis que gritaram: Que temos nós contigo, ó Filho de Deus! Vieste aqui atormentar-nos antes de tempo?” (Ver também Lucas 8:26-34).

A interpretação pela visão da fé reformada é de que este inferno por qual Cristo sofreu, é na verdade, a humilhação e as angústias de morte que ele sofreu durante sua condenação, recebendo ele mesmo a ira de Deus em nosso lugar. Por isso Paulo diz que aquele que não conheceu pecado Deus o fez pecado por nós (2 Co. 5:21). Diz-se ainda que as expressões “carne” e “espírito vivificado” não são opostas, mas dizem respeito à pessoa unica de Cristo em estados diferentes e épocas diferentes.

1 Pedro 3:20 conclui que enquanto a longanimidade de Deus aguardava, a mensagem de arrependimento era pregada entre os contemporâneos de Noé e enquanto a arca era construída com a finalidade de que a mensagem fosse crida e as pessoas pudessem ser salvas. Mas como o próprio texto refere, somente oito pessoas foram salvas porque creram em Deus, enquanto os demais foram afogados.

Portanto, a tentativa de trazer uma segunda oportunidade àqueles que rejeitaram a graça de Deus enquanto vivos é errônea e até mesmo satânica, pois se utiliza de engenhos humanos para dar uma falsa esperança aos rebeldes. Além de uma visão distorcida da pessoa de Deus, de modo que sua bondade viesse a contrariar sua justiça e sua palavra, pois em Hebreus está escrito que aos homens está ordenado morrer apenas uma vez, vindo depois disso o juízo (9:27). Não há margem para uma segunda chance, tampouco para uma pregação de Cristo aos que já morreram e aguardam o Dia do julgamento. A parábola de Lázaro e o rico também deixa muito claro que não há como os que uma vez foram lançados no lugar de tormento transponham o abismo que está posto entre o inferno e o seio de Abraão. Não houve uma segunda oportunidade para aquele homem, nem haverá para os demais.

Concluímos que essa equivocada interpretação surgiu, além da tentativa de possibilitar uma segunda chance aos mortos, do erro teológico de adaptar as Escrituras ao Credo apostólico, ao gosto do homem e é assim, sabemos, que surgem as heresias.


BÍBLIAONLINE.com.br. Almeida Corrigida e Revisada Fiel.
BIBLE.org/article/where-was-jesus-spirit-when-his-body-was-tomb acessado em 14 de jun. 2012 às 14:23
CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã: Livro II disponnível em http://wesleycarvalho.com.br/wp-content/uploads/Jo%C3%A3o-Calvino-Institutas-2-tradu%C3%A7%C3%A3o-do-latim.pdf acessado em 21 jun. 2012 às 14:21
MACKENZIE.br/boletim1208.html acessado em 12/06/2012 às 07:51
MACKENZIE.br/fileadmin/Mantenedora/CPAJ/revista/VOLUME_IV__1999__1/Heber.pdf acessado em 12 de jun. 2012 às 07:44
VATICAN.va/archive/catechism_lt/p1s1c3a2_lt.htm acessado em 14 de jun. 2012 às 14:51
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