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Introdução ao Antigo Testamento

O Antigo Testamento compreende uma coletânea de 39 livros reunidos em um único volume cuja composição cristã se baseia nos escritos da Lei (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) chamado de Pentateuco; nos doze livros históricos (Josué, Juízes, Rute, 1º e 2º de Samuel, 1º e 2º de Reis, 1º e 2º de Crônicas, Esdras, Neemias e Ester); cinco poéticos (Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cânticos); cinco dos Profetas dos Maiores Escritos (Isaías, Jeremias e Lamentações, Ezequiel, Daniel); e doze dos Profetas dos Menores Escritos (Oseias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias). Embora a ordem, divisão e a classificação de alguns deles se apresentem de forma diferente entre a Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã (LASOR, 1999, p.142), todavia estas particularidades não comprometem a verdade das Escrituras no que tange a inspiração nem mesmo a relevância dos conteúdos individuais ou como unidade. A canonicidade dos escritos tanto para judeus quanto para cristãos é reconhecida em unanimidade. Seus diversos autores, em diversas épocas e de diferentes estirpes foram homens escolhidos e inspirados por Deus para registar sua revelação (2 Pe. 1:20-21). E embora seja uma tarefa difícil responder com precisão a algumas questões referentes à autoria, datas e lugares onde as partes do AT foram escritos, há todavia em seu todo, certamente, uma unidade cujo conteúdo cumpre fielmente todo o propósito pelo qual fora estabelecido. Esse propósito se resume em comunicar a revelação do Deus Criador, a condição do homem decaído e sua necessidade de redenção, anunciar a vontade e mensagem da salvação ao homem e todas as suas implicações soteriológicas. Veremos em seguida resumidamente alguns aspectos em que o Cânon Veterotestamentário se presta a satisfazer este objetivo.

As línguas originais

O primeiro aspecto importantíssimo a ser considerado refere-se às línguas em que o AT foi escrito. O processo de edição e compilação compreende um grande espaço de tempo e uma vasta variedade de autores. Sabe-se, porém, que os escritos foram registrados originalmente na língua hebraica e aramaica. Os textos em Aramaico são encontrados nos livros de Daniel (2:4-7:28), Esdras (4.8-6.18 e 7.12-26), Jeremias (10:11) e, possivelmente Gênesis 31:47 (ARAÚJO, 2008). Tanto o Hebraico quanto o Aramaico são denominadas de línguas semíticas (de Sem, filho de Noé), pois são de uma mesma origem ou família, daí haver semelhanças e afinidades marcantes entres elas. Algumas dessas afinidades se expressam entre as demais línguas cananeias (LASOR, 1999, p.661-663). Além disso conta também com uma tradução para o grego, que é uma versão (LXX) chamada de Septuaginta. Essa mistura de línguas deve-se ao contexto histórico em que foram registradas as palavras. O aramaico era uma língua franca e diplomática entre as nações cananeias e do Oriente Médio. A influência assíria e o cativeiro babilônico também se encontram neste contexto. Posteriormente o grego também se tornou a língua comum entre as nações do mundo antigo. Daí seguem-se também as versões em outras línguas: A própria Septuaginta, Pentateuco Samaritano, Targuns, Vulgata Latina, Siríaca, dentre outras.

As relações dessas línguas com o registro da revelação desembocam nos meios de preservação das Escrituras. O processo de registro considerado – como o material (papiro, tábuas de argila, cerâmica e couro), o método e o instrumento (copistas, escribas, massoretas, etc.) empregados configuram algumas dificuldades, uma vez que não possuímos os documentos originais, mas cópias. Todavia, para além de algumas palavras obscuras – que possuem difícil entendimento em determinados textos, e complicações linguísticas presentes – de forma alguma estas dificuldades subvertem o conteúdo e o ensino das Escrituras no AT. Para termos tal segurança abordaremos uma análise dos meios que o AT emprega em prol do processo revelacional e de inspiração presente nas Sagradas Escrituras para alcançar a meta empreendida. Vemos nisto, portanto, não apenas a vontade de Deus de que essas fossem as línguas e os meios para registro da revelação, mas sua mão guiando e preservando sua Palavra.

Meios revelacionais do Antigo Testamento

É preciso considerar que antes da Palavra ser escrita, Deus usou meios para falar ao homem e revelar sua vontade, isto é, o que Deus havia falado desde Adão era transmitido oralmente de geração para geração (MEIN, 1990, p.5-7). Mas além disso, esta comunicação ou expressão divina se percebe desde o princípio do mundo por meio das coisas que foram criadas, ou seja, Deus comunicou seus atributos por meio do cosmo da natureza. Ainda que esse prisma não fosse específico para a salvação, certamente ele o é para que os homens sejam indesculpáveis quanto a glorificar a Deus pelo que Ele manifestou (Rm. 1:19-20) e constitui um testemunho de Deus (Atos 14:17).

No entanto, Deus falou de muitas outras maneiras aos homens (Hb. 1:1) nas quais o AT menciona: Sonhos, visões, mensageiros de Deus e teofanias (manifestações de Deus). Porém, ficou claro que o aspecto de revelação progressiva se voltava cada vez mais para um registro permanente em face da transitoriedade dos meios extraordinários mencionados. Todos estes meios serviram para o propósito a que foram destinados no seu devido tempo e lugar, mas a Escritura tornou-se preceptora quanto a vontade de Deus revelada no verbo. E assim se faz quando Deus escolhe Moisés para escrever em livro as palavras que proferira (Êx. 17:14), sendo que as Tábuas do Testemunho foram escritas pelo dedo de Deus (Êx. 31:18). Daí se dá o desenvolvimento dos registros através dos profetas, reis e pessoas comuns escolhidas e inspiradas por Deus para isto ao longo de pelo menos mil anos e dezenas de pessoas.

BíbliaO NT dá indícios da aceitação da Escritura do AT como inspirado e digno de confiança entre os judeus. Mas mesmo antes disso, os próprios profetas dispunham de muitas aplicações, interpretações e mensagens com base nos escritos anteriores. No período do NT Jesus e os apóstolos conferiram a mesma autoridade ao AT com muitas citações e cumprimento de profecias principalmente referentes ao Messias. Não há discussão sobre os meios revelacionais da Escritura, sua inspiração ou autoridade (LASOR, 1999, p.637), também não é em vão que toda teologia do NT seja baseada no AT. Pois, na verdade, os conceitos teológicos do NT constituem uma ampliação dos mesmos conceitos do AT, porém em forma muito mais nítida. O próprio Messias no NT é designado como a encarnação do Verbo de Deus. A manifestação perpétua da divindade em Cristo. Estes argumentos dizem respeito aos meios aceitos e empreendidos no NT em consonância com o AT, no sentido de que este mesmo confirma seu status de autoridade escriturística da revelação inspirada de Deus.

Formas literárias do Antigo Testamento

Dessa forma, temos o produto da revelação nas Sagradas Escrituras através de diferentes estilos literários que transmitem conceitos teológicos através de histórias, tipos, rituais, poesias, leis. Alguns desses conceitos revelacionais passaram por desenvolvimento progressivo tendo seu cumprimento no Novo Testamento. Alguns aspectos foram revelados, mas não explicados. Outros foram gradualmente desenvolvidos e explicados. No entanto, no que se refere ao conteúdo soteriológico e cristológico estes conceitos sempre estiveram presentes e constituem uma unidade harmônica em todo o AT e também em relação ao NT.

O estilo literário confere ao caráter histórico, por exemplo, um sentido diferente do qual conhecemos hoje sobre fatos testemunhados, mas de verdades teológicas a respeito de fatos (LASOR, 1999, p.22) que são, por sua vez, transmitidos de forma simbólica, tipológica ou poética. É indispensável destacar que esses relatos se baseiam em fatos reais e não míticos, pois possuem cunho didático relativo à revelação de Deus ao homem. Por exemplo, a não conformidade da obediência de Adão à palavra de Deus ao comer do fruto que lhe fora vetado, acarretou em consequências reais de pecaminosidade e morte sobre o homem e sobre a criação também. E da mesma forma esta consequência se estendeu a seus descendentes. Ao passo que a promessa de Deus relativa ao descendente da mulher que pisaria a cabeça da serpente, anuncia as boas-novas de um Salvador prefigurado neste descendente cujo calcanhar foi ferido.

Assim se constitui a introdução básica de compreensão do AT como Palavra de Deus que inclui sim todas as implicações a que esta autoridade permeia. Desde sua origem na revelação de Deus, em todo o processo de anunciação, inspiração, registro e iluminação para ensinar, repreender, corrigir e instruir o homem em toda boa obra (2Tm. 3:16). Para que quer judeus, quer gentios tenham consolação nas Escrituras da parte de Deus.

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LASOR, William. Introdução ao Antigo Testamento. 1ed. São Paulo: Vida Nova, 1999.

MEIN, John. A Bíblia e como chegou até nós. 8ed. Rio de Janeiro: Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1990.

ARAÚJO, Reginaldo Gomes de. Gramática do Aramaico Bíblico. São Paulo: Targumim, 2008*.

*disponível somente para leitura em http://books.google.com.br/books/about/Gram%C3%A1tica_do_Aramaico_B%C3%ADblico.html?id=lXTczZjd5e0C

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