Evangelho

Tronos, tumbas e teologia

Em tempos de eleição no Brasil, após uma Copa do Mundo trágica para muitos no mesmo ano, as expectativas que naturalmente a nação nutre em relação aos governantes de um país de contrastes tão chocantes como o nosso, são tão frágeis. Nesses tempos, para além de muitos outros temas peculiares, há, talvez, lá no íntimo o desejo de nutrir a esperança de ver nossa terra sendo governada com justiça, bondade, responsabilidade e atenção. É por isso que, ao ler este Salmo, após o culto deste domingo (26/10/2014), escrevo estas linhas meditando nessas palavras e tentando estabelecer qual a relação entre tronos, tumbas, expectativas populares em período de eleição e o conhecimento de Deus.

Salmo 146

Aleluia! Louva, ó minha alma, ao SENHOR. Louvarei ao SENHOR durante a minha vida; cantarei louvores ao meu Deus, enquanto eu viver.

A introdução do Salmo inicia com uma declaração, um convite de louvor a Deus. Abrindo o culto público a deidade, o salmista também encerra o hino com o reconhecimento da dignidade de Deus, o louvor. O próprio autor é intimado (no íntimo) a louvar ao Deus da Aliança com os homens. Ele mesmo afirma que este louvor a Deus está relacionado com sua existência sobre a terra. Essa confiança e exultação no Reino de Deus precede o contraste com o governo humano e uma admoestação.

Não confieis em príncipes, nem nos filhos dos homens, em quem não há salvação. Sai-lhes o espírito, e eles tornam ao pó; nesse mesmo dia, perecem todos os seus desígnios.

A admoestação possui um caráter apologético, de convencer os ouvintes a ver e constatar que os homens não são dignos de ser alvo de nossa confiança. Os governantes não são semideuses (demiurgos), não podem manter as promessas feitas, seus projetos são como letras escritas nas areias da praia as quais logo as ondas apagam. Seus ideais e pensamentos, por melhores ou piores que sejam, rapidamente mudam de direção, como uma biruta. Neles não estão nossas esperanças de ver um mundo melhor. Eles logo perecem. Talvez passem por uma ou duas gerações e então já não há memória de suas palavras. Suas ideologias não acham mais lugar neste mundo. Ainda que haja um que possa se esforçar por dar o seu melhor e nisto ser bem-sucedido, aqueles que neles confiam necessariamente irão se deparar com a frustração de sua curta existência.

Bem-aventurado aquele que tem o Deus de Jacó por seu auxílio, cuja esperança está no SENHOR, seu Deus, que fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e mantém para sempre a sua fidelidade.

Diante desta constatação, o salmista declara a bem-aventurança daqueles que se estribam no Deus da Aliança. No Deus que é fiel às suas promessas e que pode sustentá-las pela sua palavra, pois ele é o que criou o mundo e o sustenta. Ele fundou a terra e estendeu os céus e o mar. Ele é poderoso para criar todas as coisas do nada. Quem conhece a história de Jacó, certamente saberá a relevância do termo Deus de Jacó. Seu nome significa usurpador, suplantador ou coloquialmente enganador. Assim ele foi conhecido até ter um encontro com Deus face a face em Peniel (Gênesis 32). Deus mudou seu nome para Israel após tê-lo socorrido na angústia de sua súplica. Pois Jacó haveria de se encontrar com seu irmão Esaú a quem havia ludibriado com respeito ao direito de primogenitura (e porção dobrada da herança por isso) e por ter enganado seu pai para receber a bênção que era para Esaú. O típico espertalhão, que quer se dar bem a todo custo. Ele era movido por interesses financeiros e materiais. Ele tentou aplacar a seu irmão com presentes (propina?). Jacó deveria ser uma figura muito típica conhecida por nós (um político?).

No entanto, o salmista fala do Deus de Jacó por que houve esperança para Jacó, houve mudança em seu caráter, seu proceder e sua espiritualidade. Há esperança no Deus que mantém sua fidelidade antes mesmo de os homens virem ao mundo. O Deus de Jacó já era o Deus de seu pai Isaque e também de Abraão seu avô. O Deus fiel mantém sua Aliança por todas as gerações. Os que confiam no Senhor serão felizes por depositarem nEle sua esperança.

Que faz justiça aos oprimidos e dá pão aos que têm fome. O SENHOR liberta os encarcerados. O SENHOR abre os olhos aos cegos, o SENHOR levanta os abatidos, o SENHOR ama os justos. O SENHOR guarda o peregrino, ampara o órfão e a viúva, porém transtorna o caminho dos ímpios.

Vejo que nossa geração nos últimos séculos vem sendo ensinada a pensar como um rebanho. E isto reflete também sobre o modo como as pessoas desejam que um governante haja. Há a expectativa de que a justiça e o amparo venham sobre todos de uma vez.

O salmista porém, reconhece que o Senhor não apenas sustenta o mundo, mas ele atenta para os desamparados. Ele não o faz como uma ação em massa. Todos estamos cansados de ver injustiça e opressão nos noticiários e ao nosso redor. E unanimemente a nação vê isto como um reflexo de um governo injusto. Mas, o que pretendo dizer é que, se a justiça não está nas ruas, é por que nossas esperanças estão postas em homens e esperamos que eles façam por nós o que devíamos fazer. Deus possui um Reino de justiça e paz, e ele nos introduz em seu Reino para sermos agentes da justiça e da paz na sociedade. Deus sacia os necessitados pessoalmente, mas ele o faz por meio de seus servos. Deus e não os homens são o referencial para a justiça que ansiamos por ver aplicada. De socorro e amparo para os que são oprimidos, mas de vingança e confusão para os opressores.

O SENHOR reina para sempre; o teu Deus, ó Sião, reina de geração em geração. Aleluia!

Quando um importante rei em Israel faleceu, o profeta Isaías viu o Senhor sobre um alto e sublime trono, e a sua majestade enchia o templo inteiro. Isaías viu que sua esperança é o Senhor, não o homem. O seu consolo vem do fato de que, embora um bom governante morra, o Senhor é aquele que está entronizado para sempre no trono da sua justiça. Somente Ele é digno de louvor e reconhecimento, pois só Ele é bom e seu amor dura para sempre.

Meu desejo é que haja nos corações de todos nesta nação a esperança no Deus de Jacó. O Único Deus verdadeiro que mantém sua Aliança e cumpre suas fieis promessas geração após geração, cuja palavra não falha e os desígnios não são frustrados. Ainda que as próprias leis da natureza falhem, haja em nós a alegria no Deus da nossa salvação, como cantou o profeta Habacuque. Ainda que hoje muitos estejam sem alento por causa das muitas circunstâncias adversas que são presentes ou que estejam por vir, venha paz sobre nosso povo, pois o Senhor reina para sempre no meio dele.

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