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Por que somos cristãos? – Parte 2

Loucos por Cristo.

No cenário da crucificação havia diferentes tipos de pessoas. Haviam os romanos que estavam apenas fazendo o seu trabalho, cumpriam ordens. De alguma forma eles são a ilustração vívida das pessoas que vivem no mundo cumprindo o que elas tomam para si como propósito de vida: o trabalho. Não importa o que estiver ao seu redor, não interessa se o mundo desaba, nem mesmo se Deus em Jesus tiver que ser preso, açoitado e morto, “eu preciso trabalhar”. Elas não dizem, mas em seus atos literalmente gritam: “Deixa Deus quieto. Ele faz a parte dele e eu a minha”. Essa é a classe dos materialistas.

Havia também lá a classe religiosa. São eles os que julgam toda questão doutrinária e religiosa. São eles que usam a régua para medir o Filho de Deus para saber se ele condiz com sua doutrina. Eles precisam colocá-lo no seu pacote, Deus tem de caber na mente deles, pois do contrário não é quem afirma ser. Então, os religiosos são os primeiro a lhe dirigir cusparadas, murros e tapas no rosto e zombarias por achar um Deus tão grande, infinito em imagem de homem tão simples e finito. Eles são os fundadores do movimento ateísta, mesmo em nome de Deus.

Há ainda Judas, aquele que beijou o rosto de Jesus mas mesmo assim não teve nenhum escrúpulo ao vendê-lo aos religiosos e entregá-lo ao partido dos trabalhadores (os mencionados acima), um verdadeiro traficante da fé. Ele pode representar o tipo de pessoa que sabe muitas coisas sobre Deus, até mesmo teve muitas experiências com ele. Mas apenas conseguem ver em Jesus um meio de lucro, uma barganha com as autoridades clericais. Tiram proveito da religião, do pacote ideológico oferecido pelos religiosos. O que acabou por conduzi-lo à perdição e descontrole total de seu ser, dando lugar em si mesmo ao diabo e finalmente no abandono de si mesmo o suicídio.

Há também o representante das civilizações humanas na pessoa do governador Pilatos. O qual mesmo tendo conhecimento do caso por completo, advertido sobrenaturalmente pelo sonho de sua esposa, ciente e plenamente certificado da inocência do Cordeiro, lavou as mãos diante da nação. Seu papel foi até importante por ser a autoridade instituída por Deus que daria testemunho da imaculabilidade do sacrifício. Todo cordeiro oferecido deveria ser sem mancha e sem defeito. Pilatos e Herodes foram os que publicamente testificaram a pureza do Cordeiro de Deus. Ambos podem se nos ilustrar o tipo de pessoas que já ouviram falar num certo Cristo, Rei dos Judeus, um Rei cujo reino não é deste mundo, mas se manifesta nele, conhecem a historicidade patente de Deus em carne amando e se entregando pelo perdão dos pecados dos homens, mas não querem ter parte com nenhuma questão religiosa. Cônscios desse Jesus histórico o delegam ao bel prazer das massas, como que dizendo: “‘a religião é o ópio do povo’, eles que se distraiam com essas coisas”.

Também impera a injustiça social, na inversão de valores quando o homicida Barrabás é solto da prisão e livre da justa e merecida condenação, segundo as leis civis de Roma. Porém o Autor da Vida é condenado em seu lugar. Há dentre os “perturbadores” da ordem social ainda dois tipos flagrados sob sentença de morte. Dois ladrões crucificados juntamente com Jesus Cristo. Um deles decidiu ignorá-lo aderindo aos mesmos impropérios dos que zombavam dele. Ele até mesmo contemplou o paradoxo, mas que talvez para ele na verdade se mostrasse como uma contradição: “Deus está morto”. E é um paradoxo pois Deus não tem limites, nem mesmo a morte o limita. Nem o diabo, pois é o diabo de Deus. A própria morte, paradoxalmente estava sendo morta na morte de Jesus e através desse sacrifício a vida jorrava naqueles que nele creem. Mas isso embola o entendimento dessas pessoas que querem também limitá-lo, apreendê-lo em seus raciocínios.

O outro ladrão, representativamente, podemos cogitar como aqueles que reconhecem seu lugar, por mais duro que existencialmente isso seja. Ele não deseja abrir mão da graciosa oportunidade, pois como ele, muitos de braços abertos veem a si mesmos totalmente impotentes para serem salvos no último suspiro. Só lhes resta se entregarem a essa encarnação da Verdade que parece loucura.

Havia ainda muitos outros tipos de pessoas como as mulheres que desde o início serviam a Jesus com seus bens. Haviam seus parentes, seus amigos e muitos mais. O espetáculo foi grande o suficiente para atrair todos aos pés da cruz.

Mas o que fora dito antes com respeito à Palavra, diante do panorama da cruz – o centro do mundo e da existência humana, ali representada uma diversidade de pessoas – agora nos leva a considerar algumas coisas. Dentre as tantas loucuras que há no mundo, a qual delas iremos nos agarrar? A qual classe de pessoas nos identificamos? Nesse louco mundo, que tipo de louco desejamos ser? Qual a loucura ideológica preferida de nossa curta existência?

Respondo a questão primaria que desembainhou este texto: “Por que somos cristãos?” Certamente não houve a pretensão de elencar todas as classes de pessoas aqui. Mas o que realmente tange diante do que foi exposto é dizer que somos loucos por causa de Cristo. Somos loucos que creem na Palavra que cria mundos dentro de nós e que transforma o ser e o não ser. Cremos na Palavra que opera no silêncio do interior invisível, portanto cremos no que não se pode ver, mas age criando nova criatura.

Como disse Paulo: “Pois a mensagem da cruz é loucura para os que estão perecendo, mas para nós, que estamos sendo salvos, é o poder de Deus” e “agradou a Deus salvar aqueles que creem por meio da loucura da pregação” (1 Coríntios 1:18,21). Pois os religiosos querem uma prova substancial e os céticos racionalistas buscam uma razão lógica, porém nós cremos na louca sabedoria de Deus em salvar por meio daquele que subiu ao madeiro.

Dentre todas as loucuras do mundo escolhemos a loucura do amor de Deus na cruz. Fomos escolhidos para a mais sensata das loucuras, a loucura de Deus. Somos loucos por crer no incrível. Do ponto de vista das loucuras humanas, não somos diferentes em nada absolutamente. Temos as mesmas incoerências, ambiguidades e distorções a que todos os homens são passíveis. Muitos dos que contemplavam a cruz estavam cheios de temor, espanto. Outros nem ficaram para ver a cena, abandonaram e até negaram o Cristo por não saber lidar com tamanha loucura.

Porém almejamos uma perspectiva diferente e fomos colocados no caminho de uma realidade transcendente olhada do alto da cruz. Pois somos cristãos por causa dessa identificação com o Cristo, que vem pela fé. Nós fomos chamados a subir no ponto mais elevado que a existência humana pode chegar, a cruz. É de lá que somos confrontados com a Verdade da Palavra viva. Queremos ser “vida louca” nEle, por Ele e para Ele em semelhança dEle que é amor puro.

Somos cristãos, porque acolhemos a loucura do amor daquele que nos amou de tal maneira que deu sua vida em resgate pelos que nada mereciam. Assumimos o risco da própria vida para obedecermos a loucura de amar mesmo os nossos inimigos, como Ele amou. Somos cristãos porque assentimos e nos envolvemos com o serviço e a amizade dAquele que é verdadeiro amigo: “O meu mandamento é este: amem uns aos outros como eu amo vocês. Ninguém tem mais amor pelos seus amigos do que aquele que dá a sua vida por eles. Vocês são meus amigos se fazem o que eu mando” (Jesus em João 15:12-14). Há quem escolha a loucura do ódio, da obstinação cega, do religiosimo absurdo e incoerente, do ativismo desenfreado e sem propósito existencial dignificante, há quem escolha ser cego para as questões da vida se fazendo indiferente e relativizante de uma só Verdade imutável, consistente e inabalável. Há quem escolha a insensatez de viver para o lucro, para a ambição, para a vaidade e a ganância sem contudo obter nenhum lucro que preencha a alma.

Diante de tantas loucuras da humanidade decidimos ser loucos pelo que realmente vale a pena nesta vida: negar a si mesmo, tomar a sua cruz e seguir a Jesus. Ir para o mesmo lugar que ele na sua morte esteve e na sua ressurreição está para sempre. Ser loucos de amar como Ele amou e porque Ele amou primeiro. De lá contemplamos toda a loucura humana em busca de sentido e resposta, ou até mesmo de apenas questionamentos para viver, seguir adiante. De lá temos a certeza que escolhemos a única opção das loucuras: ser como Cristo.

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