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Solilóquio

Esta tarde, vendo a chuva que caía, pensava como perdemos coisas preciosas da vida pelo simples fato de criarmos uma rotina mental acerca das coisas naturais. É como se tivéssemos encucado que tudo é fatalmente determinado, e assim já não damos mais atenção. Temos a tendência de nos acostumar com tudo o que é repetitivo. Mas, ponderando sobre a maravilha que é a chuva, não pude deixar de perceber que estamos errados.

A chuva não está lá caindo como resultado de um processo natural simplesmente. Olhamos e não vemos a graça contida em um verdadeiro milagre diante dos olhos. Pois, se vemos a chuva como um mero processo das leis estabelecidas na natureza, devo admitir que pensar assim é ser desonesto com a vida e com minha própria razão. Uma vez que este processo é resultado passivo, logo ignoro que, como tal, urge por um processo ativo, ou um agente ativo que o estabeleça.

Como cada gota se constitui a partir de uma combinação exata de moléculas de oxigênio e hidrogênio, mais uma vez admito que isto também se torna enfadonho no sentido de uma pobre descrição do óbvio, que nem sempre foi tão óbvio assim. Mas, se nem sempre foi óbvio assim, o que agora me força que continue a ser? Como me alienar de um processo tão rico e laborioso, cuja massa veio de um lugar do qual, provavelmente nunca estive. Rega tudo e de maneira misteriosa corrobora para a proliferação da vida sobre a terra sem quem eu tome parte nesta obra. Como ainda, ignorar o fato de haver envolvimento inexcusável de tamanho astro sobre nossas cabeças? Tudo já estava aí quando cheguei. Que me faz pensar que continuará aí como ato obrigatório à minha permanência sobre a terra?

Como poderia tornar-me ser tão vil e egoísta a ponto de fazer-me de rogado por tamanha graça que vem e não escolhe a quem se doar? É certo que a vida não se faz de verão. E quem disse que se faz apenas de tormentas? Não é exatamente na subjetividade que reside a contemplação do que é belo. Ou quem poderá descrever o que é o belo? Está em mim, ou está fora de mim? Não está antes na relação entre o eu e o bem que me foi concedido?

gota chuvaAssim, de tal forma de surpreendo, porquanto geração vai e geração vem, Ele continua a conceder graça sem que o homem tome consciência disso. Ele continua a fazer raiar o seu sol sobre maus e bons e sua chuva sobre justos e injustos. Como poderia ter-me por bom e justo se não considerar esta graça? E de que maneira não se “descoisificar” e, por esta relação com a Fonte da graça não ser compungido em mim por tornar-me ainda que seja uma gota sobre a terra sedenta? Afinal, nego-me o “direito” de atribuir, ainda que inconscientemente, trivialidade a um oceano de graça, profusa em tão pequenas partículas.

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