Mensagens

A fé “que vê além” de Habacuque

A queixa de Habacuque por causa do mal e do sofrimento presente

O livro apresenta os questionamentos de Habacuque diante do Senhor por causa das maldades do povo que invoca o nome do Senhor. O profeta se queixa por ver tanta impiedade, injustiça e arrogância prosperarem e, aparentemente Deus permanece em silêncio perturbador (1:2-4). E mais, ele reclama que, por conta da impunidade a lei se afrouxa, não há justiça e o justo é oprimido pelo perverso.

A indignação de Habacuque é ainda mais intensificada quando Deus lhe responde como que dizendo: – Eu vou fazer algo, que vocês nem acreditam! Eu vou trazer justiça sim, e os babilônios serão meu martelo. Eu vou trazer uma nação mais ímpia ainda para executar a minha justiça sobre os pecados do meu povo (1:5-6). E Deus ainda aterroriza mais a visão com a descrição terrível que traz desses caldeus malvados (1:7-11). É como se Deus dissesse à igreja em nossos dias, que um exército de ateus, ativistas anticristãos e os piores homens do mundo viessem para destruir as igrejas e castigar os crentes. Dificilmente alguém acreditaria em uma mensagem dessas! É impossível que Deus permita isso ao seu povo!”

Quando o que vemos não condiz com o que sabemos

god-fitÉ exatamente essa a segunda queixa de Habacuque (1:12-2:1). Deus, o Deus eterno, o Santo vai usar os ímpios para disciplinar o seu povo? “Alguma coisa está errada. Aquilo que aprendi de Deus não está encaixando com a realidade. As coisas não estão boas e Deus ainda vai piorá-las?” Habacuque parece querer dizer que o Senhor não está de acordo com sua teologia, não encaixa. Deus é puro, bondoso, seus olhos não resistem ao mal. Por que o Senhor tolera os maus e perversos quando eles estão oprimindo os que são mais justos? Ele precisa de algo que lhe dê “uma visão além”.

Deus não livra o crente dos conflitos, mas em meio a eles

Habacuque argumenta com Deus dizendo que é por isso que eles adoram seus deuses vãos (1:16). O profeta não consegue compreender a realidade dos fatos, pois parece absurdo demais para o conhecimento teológico que ele tem de Deus. A vitória dos ímpios sobre os justos, na mente de um judeu da época, é como se, na verdade fosse uma luta entre os deuses pagãos e o Deus de Israel. E os pagãos estão vencendo. Esse homem perplexo se propõe a permanecer em guarda e esperar para ver o que Deus há de lhe responder (2:1). A realidade está muito além do que pensamos, e ela não é tão simples como imaginamos que seja. A teologia não possui todas as definições acerca do modo misterioso do agir de Deus, ou de permitir o mau no mundo. A filosofia propõe perguntas acerca da dura realidade que nem ela nem a religião parecem responder. O que nos resta, então? Como viver em um mundo que, ao nosso redor, e até dentro de nós, não encontra solução para os conflitos, que nos lembra de que algo está errado?

Deus responde: Pela fé viverá o justo

Então, o Senhor mais uma vez responde ao perturbado profeta. E uma das passagens mais belas, promissoras e confortadoras para a vida cristã no Antigo Testamento surge em meio ao caos da visão profética: “Eis o soberbo! Sua alma não é reta nele; mas o justo viverá pela sua fidelidade” (2:4). Deus não satisfaz os anseios filosóficos de Habacuque, nem seus argumentos teológicos encontram significado: A ideia de um Deus bondoso e justo contrasta com um mundo de injustiça e violência crescentes; como pode subsistir o mal e o sofrimento?

Deus irá também punir os perversos. O dia do ímpio chegará. A resposta e a solução do caso dada pelo Senhor é que, pela fidelidade o justo será distinguido na terra. A compreensão que o fiel terá do mundo não virá mediante o recalcitrar contra os muros da realidade dura e fria. Mas, sobretudo pela relação de confiança no Deus verdadeiro e justo. Transcender os limites da visão que temos do mundo depende de uma relação vívida e constante de fidelidade ao Senhor, principalmente quando andamos pelos terrenos obscuros da nossa existência. A nossa visão e atitude devem ser aquelas descritas no verso 20 de Habacuque: “O Senhor está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra” (Cap. 2).

Habacuque ora, confessa e louva

Quando confrontado em sua argumentação acerca do que sabia de Deus, o profeta “caiu na real”. Ele pode ver além do alcance. Ele viu e reconheceu que Deus reina, ainda que o mundo se abale, Deus reina. Ele fundou a terra e ele é poderoso para fazer uma reviravolta nas situações que estão além da nossa força e entendimento. Habacuque treme diante daquilo que Deus estava para fazer, diante da visão gloriosa e tremenda do juízo do Senhor sobre as nações e do livramento que daria seu povo (3:1-16). Apesar de tudo ser contraditório, ele exulta e se alegra no Deus da sua salvação (3:17-19) por ter tido agora uma visão adequada de Deus.

Lições práticas

a) Quanto à fé e à soberania de Deus

Muito do mundo gospel o que se entende por fé tem a ver com uma fé “doril”, que só serve para acabar com a dor; tem a fé “Google” que vai trazer milhares de resultados para perguntas mais capciosas; e a fé analgésico, para anestesiar da realidade que é tão difícil. A verdadeira fé irá se mostrar como o fundamento de uma vida que não se baseia ou se abala pelas circunstâncias, mas vai além delas. A fé na fidelidade de Deus se torna para nós uma bênção que traz exultação, alegria, força e segurança (3:17-19) quando as situações que nos envolvem querem nos abater, entristecer, enfraquecer e nos tornar apáticos e inseguros. Nem mesmo as maiores dificuldades da vida tiram Deus do seu trono, portanto, também não dê lugar a ansiedade em seu coração, uma vez que com ele você crê que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos.

b) Quando Deus age contra nossas expectativas, devemos nos calar e ouvir o que Ele fala

Não temos respostas para todas as questões difíceis da vida. E muitas vezes, nem mesmo devemos tentar respondê-las. Mas apesar disso, um silêncio reverente e uma fé vigorosa e vibrante deve permear nossa vida em meio ao sofrimento e a dor. Esperar em confiança é o que Deus nos dá como meio de vida. Deus chama Habacuque e todos nós com o fim de que não vivamos pela vista, mas pela fé, até o dia da nossa redenção que se aproxima.

c) Deus não poupa de aflições, mas dá livramento em meio a elas

Deus não livrou os amigos de Daniel da fornalha, mas em meio a fornalha. Não poupou Daniel da cova do leões, mas na cova ele deu livramento. O Senhor não nos poupa de passarmos por aflições (no caso do profeta Habacuque, Ele fez questão de intensificar as crises), mas nos dá força em meio a elas. Ele nos fortalece para as superarmos e vencermos. Deus não tem nenhum prazer no nosso mal ou em nosso sofrimento. Porém, constantemente ele usa as adversidades para nos pôr mais perto dele. Para nos provar, e afinal aprovar. Para sermos mais parecidos com Jesus que também sofreu na carne. Deus, o Pai, não livrou seu Filho das dores e da morte, mas Ele o livrou em meio a morte, ressuscitando-o dentre os mortos. A loucura da cruz se torna o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê.

d) Quando não souber o que fazer ou dizer, louve

Sim, Habacuque exemplifica pelo seu salmo após a resposta de Deus que, sim é possível cantar e exultar em meio as situações incompreensíveis por nós. É possível ver esperança quando tudo parece correr contra a esperança. O mundo pode virar de ponta-a-cabeça, ainda sim, isso não significa que o mundo venceu ou abalou minha fé no Deus soberano que domina sobre tudo e nos conduz a salvo para o seu reino e glória, acima de toda e qualquer comparação.

Assim, a evocação de fé que o livro traz tem implicações totalmente práticas. Bem diferente do pensamento da época de Habacuque, e por que não dizer também dos nossos dias? A suposta fé imediatista e triunfalista da tv, pode até gerar milagres, curas e realizações materiais como eles anunciam. Toda fé, ainda que adornada de sinais e maravilhas, mas vazia de Deus e de uma visão além do que é físico e passageiro, deve ser rejeitada como danosa, falsa e diabólica. Pois jamais será eficaz para nos abençoar o coração e auxiliar diante das tribulações. Mas só a verdadeira fé é capaz de nos fazer resistir quando as dificuldades vêm. Só a contemplação de nosso Deus reinando sobre tudo e todos pode nos dar alegria, “ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na videira, o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco e nos currais não haja gado”, ou seja, mesmo que toda confirmação material de que Deus é bom e justo e nos abençoa se apague diante de nossos olhos, o Senhor será nossa exultação, fortaleza e garantia, pois nossos olhos estão postos nEle, e nEle esperaremos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s