Estudos Bíblicos

Um só Corpo, uma só Imagem

Criou, Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. (Gênesis 1:27)

O tema da imagem de Deus no homem[1] já vem sendo discutido e estudado a muito tempo e pouco se pode concluir. A partir da Escritura podemos descobrir alguns aspectos interessantes que têm a ver com o pacto da redenção, a condição do homem no Éden e a culminação da obra redentora de Jesus, a Igreja. É seguindo esta ordem que vamos ver um pouco mais de perto esta doutrina tão misteriosa e bela.

A primeira coisa a ser considerada e que é alvo de discussão, é que a Escritura afirma que Deus criou o homem à sua imagem. Ele não a colocou no homem. Fica evidente no texto que o homem é a imagem de Deus, e não um mero portador.

A narrativa de Gênesis traz pouca luz sobre como é isto, mas o interessante para nós é que de alguma maneira o homem foi criado por Deus com uma essência naturalmente “refletora” da imagem de Deus. Alguma “fagulha” divina constitui o homem e não apenas uma parte dele. Alguns pontos relevantes podem ser observados, para aprofundarmos esta noção.

– O façamos

A Escritura usa uma expressão no plural para mostrar a decisão divina quanto a criação do homem. É o que assumimos como o Conselho Trino: Pai, Filho e Espírito Santo estão concorde e unanimemente deliberando e agindo na criação do homem. Por isso aparecem os termos façamos, nossa imagem, nossa semelhança (Gn. 1:26a). Assim como o Deus Trino é uma Comunidade Divina, assim o homem fora criado em capacidade natural de relacionar-se, com Deus e com o próximo.

– O domínio

Em segundo lugar, a questão do domínio sobre toda a criação é um aspecto da ordem divina que qualifica o homem como um co-regente de Deus na terra que também está imbuído na constituição desse representante, no ato criativo de Deus (Gn. 1:26b).

– A imagem e semelhança

Deus criou o homem de uma maneira singular. A Escritura enfatiza que diferentemente dos demais animais, criados segundo a sua espécie e as plantas segundo sua espécie, o homem foi criado segundo a imagem e semelhança do próprio Criador e no homem Deus soprou seu hálito. Além da singularidade, também fica patente que Deus criou homem e mulher. Um Deus único e Trino, soberano e pleno de perfeição não possui necessidade na criação de qualquer coisa ou criatura. Deus é imutável e independente. O homem, porém, foi criado em par e ambos, homem e mulher, possuem traços distintos, mas são uma unidade que caracteriza a mesma criatura: o ser humano, criatura, é também uma pessoa. Homem e mulher são um único gênero humano reconhecido em dois. Portanto, Deus os criou com uma essência relacional peculiar, mas que reflete de algum modo o próprio Deus Trino, a Comunidade Eterna Divina (Gn. 1:27).

– Multiplicadores da imagem e da bênção

Deus abençoou e ordenou ao homem e à mulher que se multiplicassem e enchessem a terra. Embora o texto não evidencie isto, a culminância da ordem naturalmente é de que a terra seja repleta da imagem de Deus. E novamente a questão do domínio do homem sobre a criação, como administrador fecha este pequeno bloco da criação do homem (Gn. 1:28).

Logo mais na narrativa, a ordem de Deus quanto à administração do homem sobre a criação é detalhada, assim como a formação de Adão. Deus o colocou no jardim que estava no Éden para o lavrar e guardar (Gn. 2:8,15).  Isto é importante, pois torna mais claro que Deus fez o homem e o capacitou de habilidades e talentos para desempenhar seu serviço.

Agora, se realizarmos que após a entrada do pecado no mundo e a Queda, todos estes aspectos da natureza humana foram corrompidos, porém, isto não implica que o homem deixe de ser uma pessoa, uma criatura e imagem de Deus. Embora, como um espelho quebrado, o homem reflita de forma distorcida a imagem do Criador, sua essência não lhe pode ser destituída, o que o descaracterizaria como o que ele é, uma pessoa. É por isso que não podemos supor que pela Queda, o homem tenha “perdido” a imagem de Deus. Qualquer mudança em sua essência implicaria fatalmente em descaracterização, o homem não seria homem.

Mas o sentido que devemos tomar deve ser em direção ao que a obra de Cristo e a restauração no homem naquilo em que fora destituído (Romanos. 3:23) desemboca. Alguns aspectos a este respeito podemos observar.

– Cristo redime o homem

A redenção, o perdão dos pecados e a nova criação mediante a obra de Cristo e a ação do Seu Espírito Santo assumem claramente um caráter pessoal. A regeneração operada pelo Espírito, mediante a fé em Cristo, acontece no indivíduo. O homem individualmente é tratado por Deus, por Ele restaurado e feito nova criação. No entanto, João declara que a obra de Jesus visa a um fim também coletivo (11:52). O Espírito Santo falou através de Caifás, o sumo sacerdote naquele tempo. A morte de Cristo foi claramente percebida por João como para “para reunir em um corpo os filhos de Deus”.

– Cristo restaura a imagem em um Corpo

A questão da unidade do corpo também é constante no Novo Testamento. Jesus intercedia por aqueles que creem em Seu nome, pela Palavra, para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um (João 17:21,22). É muito claro que desde a Queda o homem ficou destituído de algo, que agora, em Jesus é conferido de volta. Paulo é quem mais vezes fala sobre a imagem de Cristo sendo restaurada na Igreja, uma unidade, um o corpo. A imagem de Deus é restaurada no homem, e essa imagem de Deus é Cristo (2 Coríntios 4:4). Dessa forma, tanto na oração de Jesus quanto nas palavras de Paulo, sabemos que Cristo habita um corpo, que é a Igreja. Esse mesmo corpo já é e está sendo transformado à Sua própria imagem, que é a imagem de Deus.

– A imagem restaurada

Dessa forma, temos uma retomada daquilo que fora estabelecido no Éden: o homem é conforme a imagem de Deus. Não o indivíduo apenas, mas a unidade que somente Jesus possui e apenas o Pai confere, mediante a fé.

– A imagem de Deus

A imagem de Deus é restaurada no homem por meio de Jesus Cristo e pelo poder do Espírito. A mesma unidade designada no Éden quanto a esta essência da natureza do homem, o aspecto relacional, aptidões naturais, talentos, e, no Novo Testamento dons, concebem a Igreja, o Corpo de Cristo um perfeito varão (Apocalipse 12:5).

Todo dom que a Igreja exerce no mundo pelo Espírito Santo é um atributo de Cristo conferido a ela para a edificação de Seu Corpo, tal unidade e utilidade dos dons é exposta por Paulo em Efésios 4:1-13. De forma que, a imagem de Deus é manifestada no mundo mediante a formação deste Corpo em unidade. A Igreja de Jesus reflete a imagem de Deus no mundo. A Noiva perfeita, santa e gloriosa de Cristo refletirá Sua imagem plenamente quando a Igreja for glorificada.

Desde o princípio, a imagem de Deus no homem não é vista no cerne do indivíduo, mas de uma Comunidade Santa e una. Ninguém sozinho reflete a imagem de Deus, essa é uma característica do Corpo onde cada um dos membros possui essa imagem. De tal modo que a imagem de Deus é refletida na terra por muitos membros, mas que são um único Corpo. A imagem de Deus jamais poderia ser contida ou esgota em um único indivíduo, mesmo assim foi da Sua vontade que algo dEle mesmo fosse visto em Sua Igreja, ainda que também isto nunca possa limitar ou conter toda a imagem da Divindade. Somente em Jesus habita corporalmente a plenitude da Divindade, é um mistério que ainda não conhecemos, mas é real e verdadeiro.

– Conclusão

Diante do exposto, todas as características essenciais da natureza humana são restauradas em Cristo Jesus, de modo que nEle somos feitos nova criação. Portanto, as relações humanas, a administração da criação, a glorificação de Deus da maneira em que foram originalmente instituídas – são em Cristo restauradas, isto é, na Igreja que é o Seu Corpo. Todas essas e tantas outras características humanas estão em processo de transformação àquilo que no princípio fora estabelecido. De modo que, a humanidade de Jesus é “a imagem” que devemos “refletir” como uma nova criação de Deus, nEle. Assim, já estamos sob uma nova ordem, não mais debaixo da lei do pecado, nem da morte, que da Queda em diante vigoraram.

Jesus demonstrou essa nova realidade o tempo todo, de maneira extremamente tangível, poucas vezes emocional, mas fundamentalmente em atitude, que o Novo Testamento chama de amor. Ninguém jamais amou como Jesus amou. Ninguém jamais cuidou como Jesus cuidou. Ninguém jamais refletiu a imagem de Deus como Jesus límpida e perfeitamente refletiu.

É verdade, Paulo diz que agora vemos obscuramente, como um reflexo no espelho, e somente o amor pode refletir aqui e agora de maneira mais digna a imagem de Deus em nós. Mas, assim como João também afirmou, nós veremos face a face, O conheceremos face a face, seremos também como Ele é (1 Coríntios 13:10-13; 15:49; 1 João 3:2; 4:17). Desde o princípio, Deus criou o homem para ser com Jesus é, em amor.

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Sugiro fortemente o exame atento de todas as passagens mencionadas, bem como o contexto de cada uma delas.

[1] Homem sempre como sinônimo de ser humano, de ambos os gêneros criados por Deus.

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