Estudos Bíblicos

Parábola do Bom Samaritano

Ousaria chamar essa parábola de ‘a parábola da vida eterna’ ou ‘parábola da fé’. Visto se aproximar muito mais do centro da mensagem nela contida, do que descrever a atitude do personagem samaritano no texto.

Amando perfeitamente a Deus e ao próximo (Lucas 10:25-37)

Frequentemente Jesus foi experimentado pela liderança do povo judeu quanto a suas prerrogativas, quer messiânicas, quer divinas. O alvo da discussão era sempre questões relacionadas à Lei. Depois do retorno do exílio babilônico, vendo que havia se cumprido tudo o que a Lei de Moisés dizia sobre isso, os líderes religiosos foram tomados de um legalismo e um apego à Lei como se isso pudesse garantir a salvação da nação. Mas a própria Lei já previa que Israel falharia em guardá-la. Eles seriam dispersos por todas as nações por causa da desobediência (ver Dt. 28).

No contexto do Novo Testamento, esse intérprete da Lei levanta a questão sobre a herança da vida eterna. O que, para eles, até então, seria uma questão de direito mediante a guarda da Lei. Seria algo merecido a todos que a cumprissem.

Jesus rebate a pergunta com outra pergunta também sobre o conteúdo da Lei, dizendo: “Que está escrito na Lei? Como interpretas?” Aquele homem sabia muito bem qual era o resumo da Lei, assim como todos os rabinos daquela época: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento”; e: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (ênfase minha). Aquele intérprete estava familiarizado com a Lei. Ele citou Deuteronômio 6:5 e parte de Levítico 19:18.

É claro, o intérprete a resumiu como os rabis costumavam fazer para ensinar e respondeu corretamente a uma pergunta tendenciosa que ele mesmo havia feito.

Agora, ao dizer àquele homem que bastava-lhe fazer o que a Lei ordena e assim obteria o que buscava, este intérprete sabia, mais do que qualquer outro judeu, que amar a Deus de todo é impossível ao pecador.

Um conflito teológico: incapacidade prática do pecador em cumprir a Lei

O intérprete teria que assumir uma incompatibilidade entre “guardar o mandamento” e “herdar a vida eterna”. Que guardar o mandamento do modo que a Lei exige iria requerer dele a perfeição, ausência de pecado. Mas os sacrifícios diários não deixariam que aquele judeu cometesse o grave erro de assumir perfeição. Todos os dias, duas vezes, era necessário oferecer sacrifícios por causa do pecado. Isso até mesmo o sumo sacerdote deveria fazer uma vez ao ano. Como ele escaparia a este dilema?

Então, sua tentativa de sair foi usar a justificativa de que o segundo mandamento não deixa muito claro quem é o “o meu próximo” para que possa amá-lo. Para um judeu o próximo era aquele que estava dentro do seu círculo de relacionamento: parentes e conhecidos, irmãos de fé, prosélitos e assim o círculo ia fechando à medida que se estendia rumo aos publicanos, pecadores, samaritanos e gentios.

“Quem é o meu próximo?”, perguntou o intérprete. Jesus antes de rebater a pergunta dessa vez ilustra a relação do próximo através de uma parábola. Então, a parábola é o contexto ilustrativo explicativo para quem seria o próximo daquele homem.

Novamente o Senhor coloca as implicações de se conhecer a Lei e de se obedecê-la em profunda relação de entrega total do indivíduo que busca herdar a vida eterna. Jesus exemplifica que o próximo é todo aquele que usa de misericórdia para com aquele que encontrar pelo caminho e que esteja necessitado.

Deus não faz distinções raciais, religiosas ou de qualquer natureza. A Lei incluía os estrangeiros no acolhimento amoroso em Levítico 19:34. Era dever do judeu amá-lo como a si mesmo. Jesus estendeu esse amor aos que são inclusive considerados inimigos e os que perseguem (Mt. 5:44).

Jesus rebate a pergunta mais uma vez: “Quem foi o próximo?” E a resposta era óbvia: “O que usou de misericórdia”. Então Jesus lhe diz: “Vai tu e faze o mesmo”. Ficou claro ao entendimento daquele intérprete que se ele quisesse “herdar a vida eterna” deveria amar seu próximo e inclusive seus inimigos. A menos que pudesse agir integralmente como aquele samaritano da parábola não obteria a vida eterna. Isso lhe custaria tudo, e mesmo assim não havia garantias, ele era um pecador. E Jesus colocou a questão nos seguintes termos: Você é o próximo de todo aquele que está necessitado.

Portanto, não havia justificativas. Jesus demonstrou que a Lei não tolera erros, nem desculpas. Qualquer mandamento quebrado incorre na quebra de todos os outros. Para herdar a vida eterna o homem deveria ser perfeito (Mt. 5:48).

Jesus é o fim de todo dilema teológico

Deus é bom. A Lei é boa. Deus nos deu uma boa palavra para vivermos por ela. Mas a transgressão dela resulta em maldição. Deus é santo e não irá inocentar o culpado, nem tolerar o pecado. Deus é bom e ele perdoa, mas não inocenta o culpado de transgredir qualquer dos mandamentos. Isso está em Êxodo 34:5-9.

Estava ali, diante daquele intérprete a resposta viva de Deus a esse dilema: O Filho de Deus que desceu do céu subia para Jerusalém a fim de ser levantado como propiciação pelos pecados e conceder perdão a todos os que creem nele. Aquele intérprete encontrou Jesus no caminho quando ia para fazer exatamente isto em Jerusalém. A resposta que aquele homem precisava ouvir era essa: de que alguém perfeito cumpriria tudo o que a Lei exige, obedeceria perfeitamente a todos os requisitos, e ofereceria um sacrifício de entrega completo, perfeito e permanente.

Perfeitos para Deus pela graça, mediante a fé em Jesus

Com essa parábola, o Senhor não estava dando uma aula de boas maneiras e de como se barganhar com Deus. Não estava ensinando que é possível merecer a vida eterna. A própria palavra “herança” pressupõe receber algo que não é merecido, mas, transferido, doado. É receber gratuitamente as dádivas que outro mereceu por seus próprios esforços.

O mandamento não foi revogado, ele foi cumprido por Jesus. Ele continua valendo para todos nós, porém não como meio para herdar a vida eterna. Esse jugo pesadíssimo fora retirado de sobre nós e colocado sobre Jesus. Ainda assim, os mandamentos do Senhor são nosso meio de vida, nosso meio de conduta em relação a Deus e ao próximo. Pouco é necessário, ou mesmo uma só coisa: amar a Deus acima de todas as coisas.

A experiência de ser o próximo para com os necessitados é privilégio, é fardo suave e jugo leve para aqueles que foram e se sentem perdoados de tão grande ofensa. “Muito ama quem muito foi perdoado” o Senhor disse. Quem conhece e ama a Jesus não achará seus mandamentos penosos, nem difíceis. Por que os fará em amor, como oferta de paz e sacrifício de gratidão a Deus.

É isso que Jesus faz. Ele perdoa e transforma pecadores em adoradores pelo amor, não pela força, nem pelo legalismo, pelo farisaísmo. Ele oferece seu amor que requer apenas a fé, a confiança e a entrega. Quem nele crê tem a vida eterna.

Implicações

– Devemos ensinar a fé em Jesus aos nossos filhos e a todos que estão ao nosso alcance. E pôr ao alcance de todos a fé em Jesus. A fé de que Jesus é o nosso único Salvador, a ele pertence toda a glória.

– Devemos romper com o espírito legalista de viver como se merecêssemos algo de Deus. Isso não gera fé, gera hipocrisia e cinismo. O legalismo só destrói a fé.

– Precisamos romper com os limites e as justificativas que nós, e não Deus, impomos para não sermos o próximo dos necessitados que encontramos no caminho.

– Tem que haver ruptura com o “clubismo”, e com as “panelinhas”. Do contrário, se não amarmos como e a quem Jesus mandou, como o mundo conhecerá que somos seus discípulos?

Não precisamos parecer o que não somos, devemos ser apenas aquilo que Jesus mandou: crentes; e o que praticássemos: o amor uns para com os outros.

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