Estudos Bíblicos

A Ceia do Senhor é Comunhão

Após séculos de controvérsias e doutrinações errôneas a respeito da Ceia do Senhor, a Reforma propôs o retorno à Escritura como fonte de compreensão dos sacramentos da religião cristã. Embora dentro do próprio movimento reformado houvesse divergências de pensamento – entre luteranos e calvinistas, por exemplo – Calvino foi o que mais coerentemente se posicionou e se aproximou da perspectiva bíblica. Antes disso é importante considerarmos a visão de Calvino sobre o que ele define por sacramento. A dificuldade de compreender o que é sacramento, como veremos mais adiante, se deveu em parte pela dificuldade de defini-lo por causa das controvérsias ao longo da história da igreja quanto à natureza e a quantidade dos sacramentos.

O Que é um Sacramento?

O sacramento é uma ordenança bíblica reconhecido como meio de graça à vida da igreja. Dois desses meios de graça na visão reformada são entendidos como preceitos divinos, a saber, o batismo e a ceia do Senhor. O reformador João Calvino compreende sacramento como o sinal externo de uma graça manifesta no interior e evidenciada para com Deus e diante de anjos e homens. Para Calvino, portanto, constitui um testemunho da graça de Deus aos que creem mediante um sinal visível. Por isso, Calvino vê o sacramento como selo e penhor da promessa de Deus, uma ratificação e acomodação à consciência e condição humana. Ele afirma ainda, que o sacramento também encontra seu significado e força no conteúdo que expressa e também sela. Os sacramentos trazem a clareza das promessas. Calvino os chama de exercícios; uma vez que somos de carne, os sinais são acessíveis aos sentidos e nos apresentam sob forma visível a fidedignidade da Palavra de Deus. Somos assim, exercitados através dos sentidos na pintura que os sinais pintam diante de nós.

A participação dos ímpios nos sacramentos, segundo Calvino, não afeta sua relevância e eficiência. Seu argumento é de que, conquanto muitos tenham conhecido a Cristo, o fato de não o terem recebido, trouxe condenação e não graça. Os sacramentos continuam a ser testemunhos da graça de Deus. Contudo, o argumento que Calvino segue defendendo, é de que sem a obra do Espírito Santo aperfeiçoando nossa fé, esses sinais são vãos.

O Significado da Ceia

Calvino rejeita a ideia que pressupõe estar Cristo contido no pão. É absurdo pensar que seu corpo, que é finito, esteja por toda parte ou que se faça presente em elementos perecíveis. O benefício dessa apropriação acontece por meio do Espírito Santo. Por causa da habitação do Espírito em nós temos a Cristo por inteiro e permanentemente. É assim que Charles Hodge conclui diante da concepção reformada – que objetava a compreensão donatista – ao dizer que a eficácia deste sacramento, como meio de graça, não está nos sinais, nem no rito, nem no ministro, nem na palavra, mas na influência acompanhante do Espírito.

Dessa forma, João Calvino refuta a concepção papista de transubstanciação, e a luterana de consubstanciação. Ele vê na Ceia a presença real e eficaz de Cristo. Estas palavras são sintetizadas com o que encontramos na definição do Catecismo Maior, onde se diz:

Desde que o corpo e o sangue de Cristo não estão, nem corporal, nem carnalmente, presentes no, com, ou sob o pão e o vinho na Ceia do Senhor, […] os que participam […] se alimentam do sangue e do corpo de Cristo, não de uma maneira corporal e carnal, mas espiritual, contudo verdadeira e realmente, visto que pela fé recebem e aplicam a si mesmos o Cristo crucificado e todos os benefícios de sua morte (CMW. Pergunta no 170)

            Portanto, o significado desse sacramento é a apropriação de Cristo por nós na Ceia que se dá espiritualmente em virtude da ação do Espírito, e não pelos elementos em si; pela fé e não pela ingestão. Não pelo oficiante, mas por aquele que a instituiu e por aquele que a opera em nós.

A Ceia e Sua Eficácia

A Ceia é pão e vinho, alimento que representa o sustento do Pai aos seus filhos, o qual é a carne e o sangue de Cristo. Por dizer assim, Calvino afirma que Cristo é o verdadeiro alimento de nossa alma, não apenas verdadeiro, mas o único. Nossas almas são alimentadas por Cristo, assim como o pão e o vinho sustentam nosso corpo. Ao sermos participantes dessa carne e sangue de Cristo, tal confirmação de sua morte por nós, se torna eficazmente vivificante.

Também compreende este sacramento como testemunho da união do crente com Cristo em um só corpo. De modo que todos os benefícios alcançados por Jesus são a nós imputados graciosamente. Dessa maneira, temos a segurança da participação de sua natureza, pois mantemos comunhão com ele.

Por causa da firmeza da promessa e dos benefícios de Deus em Cristo por nós, Calvino vê a Ceia como representação vívida de todas essas coisas. O corpo e o sangue de Cristo são representados sob a forma de pão e vinho para que tenhamos plena certeza de que, uma vez nos tenham sido entregues por Jesus, são nossos.

Ceia é Comunhão

            O ponto central é que João Calvino compreende a Ceia do Senhor como comunhão real, pela fé. Ele afirma que as palavras de Jesus quanto a comer e beber em João 6:26-35 se nos apresentam como sentido de real comunhão, verdadeira e íntima participação de Cristo. Da mesma forma que não nos alimentamos do pão meramente vendo-o ou conhecendo-o, senão ingerindo-o. Essa participação – o mastigar do corpo – se dá pela fé, que não é mera imaginação, mas, de fato somos unidos a Cristo em um só corpo.

            Sua ressalva se diz quanto ao corpo mortal de Cristo, que não em si mesmo nos conduz vida, mas agora por causa de sua imortalidade a vida nos é transmitida pela sua divindade, por possuir ele vida em si mesmo, assim como o Pai possui vida em si mesmo e a transmite a quem quer (João 5:26). Essa concepção de Calvino a respeito da Ceia do Senhor traz implicações reais à vida comunitária e fraterna da igreja: em primeiro lugar, que somos membros de um só corpo. Bruce enfatiza que

A participação eucarística em Cristo, não é algo solitário; […] envolve compartilhar a vida comum no corpo de Cristo com todos os outros crentes, e arcar, junto com eles, com os sérios corolários éticos que os cristãos ignoram por própria conta e risco.[1]

A unidade do corpo é demonstrada na Ceia, de maneira que quando injuriamos ou deferimos ao outro, não o deixamos de fazer também a Cristo. João Calvino partilha da mesma noção que Agostinho, a qual atesta ser este sacramento o vínculo do amor cristão. E em segundo lugar, não se pode administrá-la corretamente à parte da Palavra. Junto ao sinal deve haver a explicação deste mistério para fins de edificação e fortalecimento na fé e na certeza da promessa representada no sacramento.

Participando Dignamente do Pão e do Vinho

Calvino ainda nos apresenta que a dignidade de participar da Ceia se dá devidamente na consciência de nossa própria indignidade. Que nenhum homem jamais poderia se achar em estado de graça ou dignidade por si mesmo. Ele estimula a que depositemos a Cristo toda nossa indignidade e que busquemos nele o que nos falta em ânimo, consolo, exaltação, justificação e unidade. Esta atitude é preceituada no Catecismo Maior, ao dizer que os que participam devem receber o sacramento julgando-se a si mesmos e entristecendo-se pelo pecado; tendo fome e sede ardentes de Cristo, […] confiando nos seus méritos, regozijando-se no seu amor (CMW. Pergunta no 174).

A Celebração da Ceia do Senhor

Quanto a maneira de celebrar a Ceia, Calvino se diz indiferente, quanto ao tipo de pão ou de vinho, ou ainda como se dê a distribuição. Fica a critério da igreja. No entanto, expõe uma liturgia a ser seguida por conveniência, com frequência de pelo menos uma vez na semana: iniciando com orações públicas; seguida do sermão; da repetição da instituição da Ceia pelo Senhor; explicação das promessas a ela anexadas; vedando a participação daqueles que o Senhor assim o recomenda; seguida de oração agradecendo pela benignidade de tal participação e pedindo a ele aceitação, instrução e preparação; neste momento se cantaria salmos ou se faria leitura da Escritura, seguida da participação do sacramento.

As concepções de Calvino acerca da Ceia foram extremamente importantes numa época onde os papistas distorciam a Escritura e privavam os fiéis de conhecer e participar devidamente deste sacramento instituído pelo Senhor. A sua contribuição sem dúvida permeia as igrejas de confissão reformada hoje, conquanto ainda muito se possa aprender de Calvino. Suas reflexões mostram bastante do seu caráter sincero e piedoso para com Deus na busca de fidelidade ao ensino da Escritura. Resta-nos, portanto, apenas apreender e praticar aquilo que ele empenhou mente, força e coração para esclarecer, a fim de que todo cristão não só conheça as benesses da graça de Cristo na Ceia, mas em humildade e consciência conheça seu lugar e participação nesta ímpar e maravilhosa celebração.

_________________________

[1] BRUCE, F. F. Paulo o apóstolo da graça: sua vida, cartas e teologia. p.277

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