Estudos Bíblicos

Paulo, o Apóstolo

Síntese Histórica e Interpretativa da Teologia de Paulo

Na segunda metade do século XVIII o movimento intelectual que despontava transformou o cenário mundial do pensamento humano acerca de tudo. Aliado ao Iluminismo esse movimento também exerceu forte influência sobre a fé cristã, especificamente na forma de ver e interpretar os escritos bíblicos. A Bíblia passou a ser encarada de um ponto de vista literário fruto da produção humana, como qualquer outro livro proveniente do intelecto do homem. Esse novo olhar afetou as bases hermenêuticas, afinal a Escritura deveria então ser interpretada a partir da época de sua redação. Com a assistência dos métodos científicos a Bíblia deveria ser pesquisada historicamente. Essa interpretação científica trouxe à lume questões da unidade teológica da Escritura como um todo, em especial no que tange a uma teologia do Novo Testamento. Os diferentes relatos de cada autor bíblico quando analisados e comparados deveriam fornecer base para uma unidade que justificasse uma teologia nesse sentido. Lutero já havia encontrado dificuldades nessa tarefa. Já no século XIX a pesquisa científica da Bíblia ouviu uma pluralidade de vozes e algumas ideias produziam ruídos em relação a outras. Georg Kümmel apresenta um método que pode ser útil no ouvir distintamente cada testemunho e em seguida amarrar o que eles têm em comum. Isso vale quanto aos escritos do apóstolo Paulo, uma vez que eles constituem grande parte do Novo Testamento.

A interpretação dos escritos de Paulo foi alvo dos estudos de Lutero e Calvino, no que a teologia da Reforma discerniu ser a justificação pela fé a porta de entrada para a teologia paulina, e mesmo para a compreensão de todo o evangelho. Contudo, a força dessa ideia foi minguando aos poucos, e a ênfase passou para outros campos, como a apropriação pessoal da redenção, proposto pelo pietismo, pelo moralismo e o misticismo no século XVIII. Esse foi apenas o início de um processo crítico de interpretação da teologia de Paulo. O esforço da Escola de Tübingen, com F. C. Baur era determinar a origem do cristianismo. Paulo seria uma figura chave, visto que ele não consultou nenhuma fonte humana nem se valeu do passado para tecer sua teologia.

Para Baur, reconstruir essa origem ajuda também na determinação da autenticidade das epístolas e das datas dos demais escritos do N.T. Segundo sua visão apenas quatro epístolas são autênticas (Romanos, Gálatas e as cartas aos Coríntios). Sua concepção, no entanto, é hegeliana, trazendo em si o critério de antítese para essa determinação. Observou-se que esse critério era bastante arbitrário e que amputava várias partes da teologia paulina.

Erro semelhante cometeu a escola liberal que reduzia a teologia paulina ao critério da antítese entre “espírito” e “carne” como uma linha ética residente no homem. Esse fundamento baseava-se no pensamento greco-helenista. Essa escola afirma que Paulo “cristianizou” essa ideia. No entanto, essa concepção não passou sem críticas e novos rumos foram dados à definição de um fator predominante na teologia de Paulo. Foi assim que a escatologia, a Cristologia (relação da teologia com a religião de Paulo) e o contexto cultural (religiões de mistério e o uso sacramental de Paulo) foram tomados como pano de fundo para a compreensão da teologia de Paulo. Foi somente com interpretação escatológica judaica de Albert Schweitzer que a teologia de Paulo tomou um rumo ao que temos hoje, e que ecoa a concepção da teologia reformada de Calvino e Lutero.

Concepção Ortodoxa

Não é à toa que falamos de concepções (no plural) da teologia paulina por parte da crítica histórica e de uma concepção (no singular) para a teologia reformada. Reconhecemos uma base única de construção da teologia de Paulo cuja essência é encontrada em esboço na carta aos Gálatas e expandida na carta aos Romanos. Além disso, todos os escritos que hoje temos no Novo Testamento e que são reconhecidos como de Paulo são aceitos dessa forma. Essa aceitação é importante pois olhar para o todo é mais coerente e fiel ao texto bíblico. Cabe agora destacarmos a estrutura fundamental da teologia de Paulo e suas nuances mais evidentes. A justificação pela fé em Cristo é a base de argumentação de Paulo aos crentes da Galácia, em cuja epístola o apóstolo com assombro e indignação os exorta. De maneira mais sistemática e ampla na carta aos Romanos essa mesma base de argumentação se encontra como apologia contra os judaizantes.

Naturalmente, no decorrer do desenvolvimento de uma teologia paulina a investigação passou a se voltar não mais para o tema básico de seu kerigma e um aspecto soteriológico, seja na justificação pela fé ou na antítese entre a carne e o Espírito. O que se buscou foi algo mais primário e condizente com o aspecto escatológico-redentivo da proclamação de Paulo. O conteúdo da teologia de Paulo, portanto, pode ser sintetizado como a proclamação da plenitude do tempo e a revelação de Jesus Cristo. A salvação é explicada a partir do ponto de vista escatológica do advento e da obra de Jesus Cristo. A história do mundo chega a uma conclusão e o Jesus que veio em carne, isto é, que “assumiu o modo de existência do mundo presente”, mas sem pecado, agora inaugura o período final da história da redenção com a chegada do Reino de Deus.

A morte de Cristo para Paulo está relacionada com o poder e a culpa do pecado (antiga era), e sua ressurreição (nova era) com o irromper de uma nova vida em sentido real e histórico-redentivo. Em Cristo essa nova era já se tornou uma realidade. A era presente perdeu sua força e domínio sobre os descendentes de Adão e a nova era nasce naqueles que estão no segundo Adão, que é Cristo. É a partir dessa perspectiva escatológica que Paulo desenvolve em sua teologia os conceitos a seguir.

A Teologia Paulina

Carne e Espírito

Além da tensão entre o efêmero e o eterno, a teologia de Paulo expande o conceito de “carne” no Novo Testamento. Esse termo nos escritos de Paulo não significa apenas o físico e nem simplesmente o humano como tal, mas o humano em sua fraqueza e transitoriedade, aquilo que ele coloca em termo do que é “formado da terra, e terreno” (1 Co 15.47) e o que em Gálatas 4 é chamado de “nascido de mulher”. Em Romanos 8.3 ele fala da “semelhança de carne pecaminosa” na qual Deus enviou seu Filho. “Carne” e “carne pecaminosa” não precisam coincidir. Mas o pecado, como se fizesse parte da natureza, ocorre na carne e define o modo de existência humano como “a carne pecaminosa”. É nessa “semelhança” que Deus enviou seu filho.

Isso posto, precisamos estabelecer a diferença entre correspondência e identidade (Rm. 6:5) da carne e do espírito. Jesus morre para a existência da antiga era, por meio da morte ele morre para a carne. Assim, ele não só deixou para trás essa antiga existência, mas também a passada era trazendo uma nova. Dessa forma, a fé não “conhece” e nem “julga” mais segundo a carne – a antiga existência (era) – mas considera tudo segundo o Espírito. Principalmente acerca do que compreendemos de seus argumentos em Gálatas e em Romanos, estar “na carne” é um conceito teológico, e, portanto, espiritual que Paulo sinaliza como sinônimo de estar “debaixo da lei”. Mas além disso, ele usa o termo para identificar três aspectos de seu entendimento: a carne como natureza humana enfraquecida; a carne como natureza humana em Cristo, ou seja, que Cristo compartilhou dessa mesma natureza da raça humana, mas sem pecado; tendo sido condenado na sua carne o pecado, em virtude de sua humanidade sem pecado; e carne como a raça humana degenerada, isto é, o antigo homem segundo Adão desprovido da nova natureza que é recebido em Cristo, o segundo Adão. O que se constitui em estar “no Espírito”. Portanto, estar no Espírito é a antítese de estar na carne. O próprio Espírito é aquele que inaugura no novo homem essa natureza segundo Cristo, e não segundo o velho homem. Ele, o Espírito, é o agente renovador.

O Velho e o Novo Homem

Como dito antes, o velho homem está sujeito à condenação por causa da lei, visto que ele não pode se submeter a lei por causa do pecado (Rm. 8:7). Esse estado condenatório é oposto ao novo estado em Cristo por causa do Espírito, no qual a lei foi cumprida e encerrada por causa da morte de Cristo aplicada aos que creem e da presença de seu Espírito. A lei exercia o domínio da morte, por causa do pecado; o Espírito exerce o domínio da vida e liberdade, já que em Cristo na carne o pecado foi condenado e a lei abolida como preceito condenatório. Como Herman Riderbbos afirma:

Assim, a antítese entre a lei e o Espírito não se encontra no fato de que o Espírito coloca-se em contraste com o conteúdo e o preceito da lei. Pelo contrário, o objetivo do envio de Cristo e do Espírito representado por ele é de que seja cumprido, completado e encerrado o preceito justo da lei não somente em Cristo, mas também em nós (Rm. 8.4).

Portanto, a função primordial do Espírito para Paulo é que não só o indivíduo seja unido a Cristo na sua morte e ressurreição, mas também que os crentes sejam unidos entre si. E essa função existe para que em todos Cristo seja formado e sua imagem seja reproduzida em seu povo até que todos alcancem a “medida da estatura da plenitude de Cristo (Ef. 4:13).

A Nova Obediência: Indicativos e Imperativos

Toda altivez combatida por Paulo principalmente em Gálatas e Romanos se deve a essa realidade que ele tinha em mente e a contradição daqueles que desejavam viver segundo o regime da lei. É por isso que também encontramos na teologia paulina o que geralmente se chama de indicativos e imperativos. A dependência do crente em Jesus não é segundo os feitos pessoais, mas fiado na obra de Cristo, da qual sobre nós se derrama a graça. Dessa dependência decorre a nova obediência que Paulo destaca em sua teologia.

Os indicativos proclamados através da nova vida não andam separados dos imperativos que devem resultar em atitude. Os indicativos são apresentados como o que aos crentes está disponível como fruto da obra redentora de Jesus Cristo. Os imperativos, por sua vez, são exigências categóricas indissociáveis da nova vida. E cada um dos imperativos está fundamentado nos indicativos, por exemplo: o indicativo: “Sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos” (Rm. 6:6); e o imperativo demonstrado na afirmação: “Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas paixões” (Rm. 6:12). Pelo fato de ter Cristo realizado a obra redentora, agora os redimidos devem andar segundo o poder que lhes é conferido pelo Espírito. A vida daí resultante serve de referência constante ao indicativo. Ambas as realidades só encontram expressão pela graça e só podem ser vividas por meio da fé.

O “Já” e o “Ainda Não”

Contudo, visto que nem sempre os imperativos são plenamente observados – o que não incorre na anulação dos indicativos – reconhecemos que nessa relação reside o que conhecemos como o “já” e o “ainda não”. Daí depreendemos que a relação entre o indicativo e o imperativo fica estabelecida pela situação escatológico-redentiva presente. O indicativo representa o “já”, bem como o “ainda não”. Ou seja, o que foi efetuado é uma realidade que encontra expressão nesta vida, mas que se completa no porvir. Da mesma forma o imperativo se volta para ambos. Em vista do “já”, pode ser exigido tudo, plenamente, pode falar não apenas de pequenos passos, mas da perfeição em Cristo. Ao passo que ao mesmo tempo se baseia no caráter transitório do “ainda não”.

É possível reconhecermos que a) em virtude do que a Reforma trouxe de contribuição hermenêutica, sem se deixar de mencionar as críticas e objeções levantadas no decorrer da história; b) bem como a busca e desenvolvimento do que se pretendia estabelecer como uma teologia paulina: ambas contribuíram, não para determinar essa posição, mas para enxergar na Escritura o que o apóstolo Paulo tinha como base de sua compreensão acerca da obra redentora. Há sim uma base comum onde todos os demais assuntos da salvação são erigidos e explicados em sua pregação, a saber, o caráter escatológico-redentivo de sua Cristologia.

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